dois comprimidos ao dia


Onde se esconde a beleza – uma rapsódia hipomaníaca
13.09.10, 9:26 pm
Filed under: Samsara

Revisite seus sentimentos, revisite-os, garoto.
Revisite as noites em que você não conseguia dormir pois o sono era tentador demais e a tentação ainda era a imagem de uma criança que invejava o brinquedo alheio, era uma alegoria estúpida de sua velha mãe que nunca aprendeu alguns elementos da narrativa e até hoje sente a dificuldade de se provar diante de você, um monstro incompleto porém tão excruciantemente abarrotado de informações que as conclusões são seu comércio, que os princípios são suas especialidades, enquanto o decorrer e os fins são seus martírios e abnegações. Firme, filho, firme nesse barco que vira, tenha firmeza em seus pulsos, tenha fé na corda e na vela e no vento e na água e nas miragens de navios fantasmas que talvez apareçam para nos redimir perante os crimes universais que cometemos. Crimes cuja gorda culpa atravessa as gerações como a lança das doenças. Quem sabe eles, quem sabe os fantasmas sairão devagar de seu recinto de madeira apodrecida, o cheiro de maçãs velhas espreitando de dentro de algum órgão moribundo, todo o amarelo da urina, da cárie, do catarro, da loucura, todo esse amarelo se desfazendo em uma aura inexplicavelmente íntima. Quem sabe, no odor da morte nos veremos. E seremos perdoados.

*

Juro, Major, não fui eu que tomei os remédios, eu sei que não eram para mim, não fui eu. Por mais que o senhor queira esmagar-me com seu peso burocrático, peso de estrelas de metal, não posso simplesmente dizer que foi minha garganta que se abriu e permitiu que os últimos pedaços daqueles tabletes de morfina entrassem em meu corpo, entrassem e deixassem-me livre de ser a dor que sinto. Não poderia fazer isso, mesmo que quisesse. Sim, o senhor sabe que sinto dores, que eu sou dores e que nós nos casamos e temos luas-de-mel e divórcios. Mas não posso me livrar delas assim, não assim. Não tomei a morfina. O senhor deveria, Major, o senhor deveria olhar embaixo das camas, dentro das gavetas, no fundo dos bolsos, nas quinas dos armários, talvez lá estivessem – os homens por si só não são bons esconderijos. Exceto quando se escondem dentro de si e então excercem o gênio dos ratos. Mas perdão, Major, perdão por ser alguém que pode se tornar suspeito. Perdão por ser alguém.

*

Era outono e eu não gostava mais de procurar lagartas nas folhas caídas. Eu não devia ter nem 7 anos, mas já havia visto meninos nus – eu era uma menina muito alegre que gostava de ver meninos nus. Os meus brinquedos, eles não eram brinquedos, eles eram um mundo, como o mundo que minha madrasta desenhava na sua prancheta, aquele imensa prancheta de desenho onde ela criava quartos, cômodos, salas, banheiros. Eu tinha minhas bonecas e eu as desvestia, eu tinha meus bonecos e eu os deixava nus, depois os travestia com as roupas do outro sexo. Era esse tipo de criança que eu era. Às vezes eu esfregava os bonecos, como se eles tivessem genitália. Gostava de humilhar meu colegas de sala, eles apenas eram gordos e sempre tinham o nariz escorrendo, crianças gordas cheias de facilidades e de um óleo que as tornava insuportavelmente difíceis de tocar. Eu tinha aqueles meus brinquedos e forçava os meus colegas a brincarem naquele circo de perversão. Lembro que sorria muito e achava que minha casa seria também um circo de perversão. Na última vez que brinquei antes de terem me trocado de escola pela terceira (ou seria quarta) vez, eu chamei um deles atrás dos sofás, um moreno, o mais gordo de todos e eu mandei que ele tirasse a calça, senão eu ia deixar ele nu na frente de todo mundo de qualquer jeito. Tremendo horrivelmente e com lágrimas represadas em olhos esbugalhados, ele abaixou a calça e vi que ele não tinha um pênis. Ele tinha alguma doença, não sei, ou era algo realmente extremamente pequeno: ele não tinha nada onde deveria haver seu pênis. Eu ri numa surpresa boba e disse que ele era uma menina a partir de agora, e que eu iria vestí-lo como uma. Os pais dele foram o motivo de eu ter de mudar de colégio de novo, e depois de cidade. Assim como as lagartas, esqueci as bonecas antes do próximo outono.

*

Não podia suportar o cheiro de cigarro que o gaúcho exalava. Ele sempre passeava pela sala do apartamento com o cigarro preso no canto da boca, andando de cueca para lá e para cá, e eu nada mais queria do que não estar ali. Não era minha índole sentar e ler os grandes mistérios, as verídicas e insolucionáveis repetições de dúvidas, as quais nos capturam e nos põem em sofás, poltronas, camas e bibliotecas – como macacos em jaulas, como cobaias tomando antibióticos e antidepressivos: é isso o que as perguntas fazem conosco, e é por isso que fazemos o mesmo com os animais. Mas eu estava quase me rendendo aos livros mais magnéticos, aos escritos de homens doentes, em edições bregas, com capas coloridas e sem estética, tentando desfazer o cheiro, tentando me encontrar no branco do papel e no peso da letra. Mas nada escondia: o problema era o gaúcho. Ele fedia, aquele merda. Não aguentava mais ter de dividir o apartamento e aguentar a nojeira que se instalava, como um líquen que lentamente se sedimenta e logo se transforma naquilo que passou a usar como base: a simbiose da sujeira, do nojo, da ojeriza: a simbiose asquerosa dos homens com seus dejetos, suas exclusões. Não havia página que servisse de refúgio, não havia como ignorar. Escondi, sorrindo, os seus cigarros um dia. Ele ficou louco, louco, e eu disse, escondi aquela merda e quero ver você achar, seu veado fedorento. Ele procurou, até ficar irritado, muito irritado. Veio e ameaçou bater em mim, depois me deu um soco com a mão direita, a mão direita imensa e de mármore. Cai rindo, rindo em convulsões no chão. Cuspi sangue e um dente nos pés dele e continuei rindo como uma hiena que desiste da presa, mesmo ela já morta. Ele disse: você está doido!! seu filho da puta!! e saiu de cueca mesmo para ir comprar mais cigarro na banca de revistas na esquina. Ouvi, pela janela aberta da sala, alguém gritar “vai se vestir, sua bicha maluca!”. Ele demorou o bastante para que eu partisse. Levei apenas minha carteira e a chave do apartamento e do meu fusca. Deixei meu quarto trancado e decidi só voltar para lá quando me desse vontade. Dormi no carro por uma semana. Quando voltei ele tinha arrombado a porta do meu quarto e jogado tudo fora, ou mesmo roubado. Ele tinha ido embora, parece que largou a faculdade e voltou pro Rio Grande. Foda-se, aquele veado. Foi ai que eu comecei a fumar.

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