dois comprimidos ao dia


Da janela com chuva II
25.12.09, 10:09 pm
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Havia uma hora que sua mãe estava no banheiro.

Lá, ela se desdobrava na labuta das eternas constipadas, nas frustrações terríveis das vísceras que optam por punir sua embalagem. O malquisto quadro lhe acometera desde a mais tenra infância, mas piorara irremediavelmente há seis meses atrás, junto com a mudança.

O novo apartamento nem era muito ruim, ao seu ver. Era  menor, em uma área menos nobre, bem verdade, mas até chegou, por um segundo, a se animar com a aventura de trocar de ambientes. Contudo, logo se viu alvo de olhares que nunca soubera antes, ao menos virados para ela. Até mesmo sua mãe viera falar-lhe coisas que não gostava de ouvir. De repente, todo o seu mundo começou a se remexer, fazendo com que sua posição no jogo de tabuleiro de sua vida desatarefada se situasse numa casa distante e malquista. Teria de abrir mão daquelas situações cujas fotografias via na revista apoiada em seus joelhos, pensava.Teria de fazer muita coisa a qual nunca quisera. E deixar de fazer outras que hoje considerava inprescindíveis.

Foi só o mundo se remexer que seus intestinos pararam.

Para completar, tinha de aguentar as reclamações moribundas do marido desiludido, a presença inadiável da filha que aparentava não amar ninguém, a interrogação do filho mais velho no qual depositava todas suas esperanças mas que não tinha um porcento de fibra para o sucesso,  a velhice que espreitava em cada gaveta dos corroídos móveis do seu aposento. E tinha de dividir aquele assento no qual agora sofria com todos, num rodízio de preocupações fisiológicas. Nem seu sofrimento mais íntimo escapava de ser magnificado.

E na posição ridícula em que se encontrava adentrou as corredeiras das possibilidades passadas, onde namorados ricos e bons de cama habitavam com plenitude, onde as saídas escondida de casa rendiam comentários por todo o bairro, mas nunca ao ouvido de seus pais. Lembrou que, então, pensava naquilo tudo como algo corriqueiro, o qual sempre existiria. Hoje penava por achar que não havia enxergado nem um passo a mais na sua frente.

De repente, ouviu alguma coisa lá fora, como se algo houvesse se estilhaçado. Desistiu de completar o malfadado ato, levantou as calças e foi se olhar no espelho antes de sair.



Da janela com chuva I
25.12.09, 9:59 pm
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Havia um ano que seu pai não conseguia um bom negócio.

Ele tinha a formação, possuía, inclusive, uma propensão a realizar boas transações. Contudo, achava-se mais esperto do que jamais seria e gastava muito tempo em sua suposta esperteza.

Gostava, sobretudo, de realizar análises estúpidas de certos aspectos da política, da economia e da vida social – seu assunto predileto. Sabia como ninguém desenrolar tramas de famílias que, geração após geração, entregavam indivíduos inescrupulosos e imorais ao mundo. Salivava durante a excitante narrativa dos homicídios encobertos, as orgias em alto mar, as doenças vergonhosas, os suicídios mascarados. Vez ou outra se dava o luxo de armar pequenos momumentos para si, edificando-os com um preconceito chulo, encrustrado com reluzentes comentários raciais, pois acreditava que deste modo poderia habitar numa certa altura, fazendo com que os ouvintes o achassem qualquer coisa superior. De uma maneira geral, era tão infantil quanto só o homem ocidental pode ser.

Seu último bom negócio foi a venda de um imóvel. Ganhou uma quantia razoável de dinheiro e, portanto, um sorriso, este sem sequer a necessidade dos incômodos comprimidos que guardava no último canto da última gaveta. Entretanto, seu faro não o valeu quando decidiu investir novamente e terminou tendo de vender o apartamento em que moravam.

Assim, o novo apartamento, bem menor que o antigo, denotava a verdade da sua incompetência, a qual ele tanto buscava enganar. O novo apartamento também conferia um estorvo diário, como que para sempre se fazer lembrar do que representava: para todos o moradores daquele imóvel, havia um único banheiro.