dois comprimidos ao dia


Não se fez a luz
24.04.10, 7:38 pm
Filed under: Ensaios

E um dia vieram os prédios. Sobre a terra nua e repleta de vida as grandes setas de concreto armado se depositaram ferrenhas, rompendo a natureza e a superfície numa chuva de gigantes. De suas fundações submersas alastraram-se raízes imensas, inteligentes, sobrenaturais. Com o toque civilizador essas estruras correram toda a extensão da possível cidade, no seu percurso deixando calçadas, cercas, postes, hidrantes, esquinas. Aos poucos a urbe ganhou seu rosto.

Dentro dos apartamentos e habitações ordenava-se outro fiat: em cada cama naturalmente brotada do piso de cada casa celestialmente enviada apareceram humanos. Naturalmente, na sub-reptícia gênese, foi respeitado o importante valor da qualidade dos lençóis ali presentes, da maciez dos travesseiros, da altura do andar, da nobreza do bairro, etc. Em cada berço, em cada colchão, em cada pedaço de papelão, surgiu uma pessoa correspondente às características do seu local de sono.

Logo no primeiro despertar as pessoas estavam confusas, delirantes, pós-ictais. Os casais se entreolharam e não se conheciam mas entendiam que haviam sido criados juntos e, portanto, juntos ficaram. Ao ouvir o choro do bebê viram a necessidade da criança, também reconhecendo nos seus olhos a sua imagem e semelhança. Compreenderam que aquilo lhes pertencia.

Os jovens vagaram estúpidos até se depararem com a mão autoritária do pai, os cabelos confortáveis da mãe, o riso próximo do irmão. Eles compreenderam.

Logo, nas ruas as pessoas entraram em contato com as mais diversas variações de sua espécie. Sexos, cores, classes, tudo se encontrou. E viram que havia diferenças, então, e as respeitaram.

Notou-se, também, que para a recém acontecida origem, havia diferentes explicações e interpretações. Pouquíssimas evidências, decerto, afinal ninguém a presenciara, mas era evidente a necessidade por uma explicação, plausível ou não. Assim, houve aglomeração daqueles que concordavam, apesar de nada saber, e distanciamento entre aqueles que discordavam.

Era óbvio que tudo foi feito para estar no seu lugar, nada de mudanças, tudo sempre nos conformes, igual ao dia original. Cada um no seu canto, fazendo o que acha melhor ser feito: se em vantagem ou detrimento dos outros, pouco importa.

E é por isso que todos nós devemos passar a vida obedecendo a tradição e a autoridade, moldando-nos conforme nossos pais, líderes e santos, ignorando a individualidade, a razão, a educação e a liberdade. É pelo mundo ter surgido assim que temos de somente aceitar e nunca, nunca, nunca nos levantar para mudar qualquer coisa, por menor que seja, pois é naturalmente impossível haver mudança na merda da nossa sociedade.

– Assim vamos em frente, inventando histórias sobre porque tudo deve ser como é, protegendo nossa estupidez com o escudo das nossas crenças.



“crtl+c ctrl+v” ou “phobos”
16.03.10, 2:55 am
Filed under: Ensaios, Poesia

/entre mídias (sejam sólidas, macias ou imaginárias), entre fotografias das nossas próprias ilusões nós nos defnimos. de dentro dos meios de contato e compartilhamento nós nos arremessamos em trens, balas, balanços e asas. sem imaginação. todos juntos no canto mais gutural dos circuitos cururus, das danações telefônicas. o caos é nossa urna preferida em exposiçãoWarning: This message may not be from whom it claims to Hundreds Less compare wallet! Visit Us Today! You are No(5)you won(1,000.000.00GBP)Contact: Elite fully available. se todo prédio é velho, se toda seta é preta, se todo arco-íris é insano, cães e gatos se propagando sob a éfige de mobília, tapetes de boas-vindas, infernos debaixo de hálitos frios e ventiladores que não alternam suas inúmeras intenções; haveria resposta para os crípticos caracteres da nossa sala de estarWe offer two messages was beginning to panic Gibbs   (Germany)      Free markettionses.ruREF:BT12052006/20CONGRATULATIONS!!!FDA  PEOPLE PROMOTION Mrs. nossas escadas são longas e escuras, onde velhos conhecidos se sentam em degraus maliciosos espreitando o prazer troiano do próximo cigarro. os âncoras esperam as letras e as entonações enquanto todos se dedicam ao alimento do incansável botão de comandoGracenator)Company 2010promo.000,000.00 USD (OneWinning Ticket Direct Telephone Number……………………………NOBODY OR………………+234806SPDC8146117extremelya parafernália nos observa com seus olhos azuis, vermelhos e verdes. os chiados, ruídos, avisos, chamados; os canos, os intestinos, tudo frívolo e emparedado. discagem cascavel. o cobre afilado que revolve em torno do nosso sono também trasmite o perigo das chaves que abrem portas para salas indefinidamente seladas wideBATCH:15/623/UK.           rs 100% geneCa fa nad wsSp_ecial in-tel.tender. n,atal d_epression _may turn o+ut toGreenbstrategy: firstlysobre os colossos fenestrados a coroa inusitada dos satélites. na ponta dos dedos o sangue mais mítico a nos unir. cliques, bipes e chiliques: a vida fruto de sua própria indústria
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De profundis
19.12.09, 2:40 pm
Filed under: Ensaios

-A solidão das feras-

As feras ilhadas miram os visitantes sem discrição – um picadeiro que calado observa a platéia. No jogo de soslaios, nenhuma mensagem ultrapassa o braço d’água. O fosso obviamente distingue os dois mundos. No entanto, sobre aquela parcela de terra dirrimida, as criaturas não conseguem se passar por naturais, tristes sombras dionísicas. Lá, nenhuma língua é úmida o suficiente para se comunicar: na verdade, a ilha é tão distante de si mesma quanto da outra margem. Resta às pálpebras cativas arder sobre os olhos selváticos, descendo um pano enjoado sobre o anti-espetáculo em plena realização.

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-A solidão do sol-

Passos ecoam como raios de neve na manhã. Mas a neve de verdade está lá fora, escondida: as muralhas defendem o mundo da visão do cárcere.

Os muros constroem seu próprio caracol, abraçando camadas e mais camadas de outros muros. Toda essa carne de pedra termina ainda por revestir milhares de esqueletos de metal, último recurso do firme claustro de almas. De almas frágeis, almas de açúcar: vida como semente morta de um imenso fruto de concreto.

É no silêncio domiciliar dessas camadas, na aridez pretensiosa dos corredores, que a trama dos passos vibra. Com ela chegam pensamentos ritmados. Mas é à solitude que eles pertencem, servindo apenas como o irritante sofrer do relógio.

A manhã franzina finalmente se descasca nas derradeiras folhas do vitimado jardim. O inverno colhe seu último tributo. Chega a tarde: o sol apagado ainda teima em sua cela gelada. Sozinho.

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-Egofagia-

A solidão humana trabalha sua mimada e gorda presença em ambos os lados de uma corriqueira causa mortis, sendo tanto seu motivo quanto sua consequência. Ainda mais complexamente, ela habita todos os extremos dos vínculos interpessoais, podendo ser a arma ou o ferimento, ser o momento solitário ou aquele compartilhado com a mais tagarela das companhias.

Os diários porcos-espinhos, nossas confusas personas, não se cansam de curtir a intragável gangorra de Schopenhauer, ora dando as quentes mãos ensanguentadas, ora almejando a pureza mais individualmente glacial.

Ainda por cima, precisamos entender que, seja do fundo do poço vazio ou do alto do mais teogônico monte, nosso choro é o de Narciso e nossa voz isqueiro do próprio cigarro, sempre variando entre o hermético e o óbvio, a depender apenas de em quem é que queremos que repouse nossa sombra. Haveria eros fora do espelho?

Diante de qualquer definição de indivíduo, raça ou espécie, sempre a seta aponta para dentro. A representação externa dos nossos desejos passa pelo crivo de outrem, mas isso não quer dizer absolutamente nada. Somos perfeitamente utilitaristas mesmos nos momentos mais afáveis, mesmo nas emoções mais nobres e atos mais altruístas. É impossível se desvencilhar da fome por si próprio.

– A solidão é o fruto inevitável do nosso profundo amor por nós mesmos.



Real idade
16.12.09, 12:12 pm
Filed under: Ensaios

Através do véu se vê a polpa. Através da neblina. O incontornável de se ser, o essencial de se saber, está sempre um caractere mais adiante. O momento do bar, o exemplo da dança, a coreografia dos anos que passam: tudo não remete ao real. Não obstante, o falso-espelho cotidiano prevalece, espírito amaurótico do presente.

A dependência dos símbolos, das abstrações, da lente opaca da humanidade é evidente: não se pode haver sem. São caminhos paralelos, belos e necessários portais. Contudo, caso não se atinja o cerne, o geist intrínseco àqueles termos, toda imagem é isenta de missão e  seu trono será irremediável e fugaz. Nada fronda sem raiz, nada medra sem a primordial fecundação, nada atina sem ser aquilo que inexoravelmente é.

Para ir além precisa-se de pouco, mas precisa-se. Uma verdade gutural, uma frase permanente, um coração sempre selvagem, pequenas coisas que no arquipélago das idéias contam como âncoras e faróis. E a vírgula, solecismo visceral, entre o que somos e o que queremos, entre o que vemos e o que realizamos, entre a interrogação e o ponto final, é o vão momento em que acreditamos sem exercer a transparente epifania da razão.

– Nenhuma labareda é tão quente e tão confusa quanto aquela chamada eu.