dois comprimidos ao dia


O amor natural
29.07.10, 12:16 pm
Filed under: Eros, Poesia

-Mineral-

O morno escuro de teus cabelos
cachoeira cálida
e calada

as insígnias pontuais
da mímica
magmática

a largura torácica
do berço
no qual me perco

e fico assim

minimalista:

criança inerme
que em seu verve
transpira;

a tua boca
de argila ardil
o arenito macio
dos teus pés —

o vulcânico afeto
cristalisado
no basalto
do nó das mãos.

Nosso asfalto alcança a lua
duas estradas que não são duas:
não há distância que não se destrua;

minha vida, a tua

rochas quentes
no sereno frio

da imensidão.

– Vegetal-

Sei que sonhas
nas celestes copas araucárias
ou talvez no alegre
rosa
do fruto da mangueira –

não há vergonha:
somos plantas
que invejam
o sacrifício da fogueira

medramos com o secreto
propósito
de nos incendiar.

Todavia
antes da papoula
que chora mas
entorpece
soubes-te tu do cacto
com seus acúleos
e sua finesse;

nada impede
ainda
que encontres
tua própria flor.

Somente um broto
como qualqer
outro
(embora aches
que o teu riso
absorto
seja disfarce
para a menina
que sabe demais)

tentas espinhos
porém mindinhos:

tens o amor.
Não sabes, pequena
mas em ti
há o amor.

O resto tanto faz.

-Animal-

“Queria sentir o cheiro, o cheiro doce
da terra quando recebe a chuva”
me disseste enquanto punhas as luvas.
E de repente te foste:
saímos quando as ruas ainda estavam molhadas
caminhando bêbados pela madrugada
os restaurantes protegidos pelas grades de metal
nossos corpos abertos como templos sem mal –
o inverno pequeno dentro de ambos.
De manhã fomos visitar os sebos
e colher os velhos livros empoeirados
e perguntamos ao senhor engraçado
onde ele havia comprado seus supensórios —

o cheiro tragicômico do papel amarelado.
O cheiro tragicômico e ilusório.

No dia anterior vimos um casório
e tu observavas sem dar um pio.
E quando explorávamos o bairro vazio
com as casas que exibiam cortinas
me olhavas tão repentina
que eu sabia: alguma minúcia
me espreitava
por trás da tua trava
de não conseguir me dizer
tudo aquilo que sempre queres dizer
tomada pelo receio, pela falta
de maldade e de astúcia;
tomada pela falta, pela falta, pela falta!

(A pergunta que tu me tinhas
era, talvez, também a minha
a qual também não pude
ali te fazer.)

Muitos anos depois, num carrosel
beijo-te ainda, depois do mel
que provaste no café
e giro no brinquedo, em pé
sabendo que o futuro nada mais é
do que outro brinquedo.

“Tenho medo”
me contaste um dia. Quem não teria?
Sabemos bem que a chuva estia
mesmo sobre um jardim tão grande.
Quanto mais podemos viver de nosso sangue?

Bem velho, de boina, irei para a praia
sob o olhar circunspecto das vizinhas
esperando encontrar um bom peixe para o almoço;
no caminho verei pernas e muitas saias
das meninas que beijam seus moços.
Mas antes da carne, imagino a vinha
que se estica na haste que fixamos:
de onde viemos e para onde vamos:
só nós sabemos o gosto das nossas uvas.

E de novo a chuva.
Sob o peso colossal da atmosfera
minha mão impaciente espera
como o ferido pela ambulância;
sombras passam e me entrego à ânsia:
“Bem-te-vi,
fala baixo, não deixes
que alguém nos veja aqui…”.
Afago tuas madeixas morenas
e temo mover um átomo que seja:
a galáxia nos é muita pequena
temo que alguém nos veja
por sermos justamente
o que não se pode ser visto:

não quero que os olhos nos tragam
para as terras onde não existo.

Sejamos discretamente
e vivamos como animais
em seu nicho:

em sua própria realidade
sorrateiramente reais

vivendo de cochichos
e de uma imensa vontade
de poder se amar em paz.



Nossas quimeras
02.02.10, 1:19 am
Filed under: Eros

– E aquela vez, lembra? Prometi que a gente veria as flores novas no parque, prometi que a tarde contaria todos os seus segredos, que os portões seriam sempre os de chegada e que os matizes nunca mais nos faltariam quando quiséssemos descrever uma coisa bela, mas teus olhos não souberam confirmar as cores que eu oferecia; ainda havia tempo naquela época, ainda havia um perigo para se descobrir, não tinha chegado o inverno completo ainda, com seus lençóis penosos e inesquecíveis… aquelas flores não são mais novas, suas pétalas já se fragmentaram e hoje comungam do mesmo solo pedregoso das raízes sombrias, mas mesmo sem as ter visto, sem lhes ter sentido o perfume, sem as ter encontrado entre meus dedos e teus cabelos, lembro de toda a sensação, cada farelo perolado que espalharíamos sobre as pálpebras quando sem controle nem pudor pudéssemos exorcizar até as menores cavernas inseguras do nosso êxtase, quando sem se importar com o poente nos atacássemos com o úmido confete primaveril o qual produziríamos, sorrindo como bêbados num quadro em chamas…


– E você, lembra? Quando na televisão disseram que um cometa iria passar, todos nós nos azafamamos, afinal o veríamos, saberíamos sua beleza e dificuldade etérea, e tudo pelo visto faria sentido, todos os olhos com o seu místico reflexo enxergariam para sempre; esse era o nosso cometa, a gente dizia, e naquela noite, naquela noite translúcida de verão, eu botaria pela primeira vez o vestido que você me deu, correria com aquele vermelho frouxo escorrendo pelo corpo, partindo morro acima e me jogando na relva para esperar a passagem anunciada do astro, do fenômeno arauto das pequenas certezas humanas que são tão distantes que todos nós, por alguns segundos, achamos que deve ser mentira… mas sua mão diurna se fez fria diante do possível cosmo do meu estilo, por trás dos seus óculos entendi não haver brilho correspondente ao do firmamento, mas mesmo assim me calo às vezes no escuro, prendendo a respiração antes de dormir e sinto aquele vestido, o rubro a me alisar o corpo, aquela explosão celeste nos apontando o branco do riso durante o festival irredutível da noite, fazendo meus castelos de imaginação, assim como você os faz, assim como todos nós os fazemos, como se tivéssemos verdadeiramente amado por ao menos um dia sequer.