dois comprimidos ao dia


Onde se esconde a beleza – uma rapsódia hipomaníaca
13.09.10, 9:26 pm
Filed under: Samsara

Revisite seus sentimentos, revisite-os, garoto.
Revisite as noites em que você não conseguia dormir pois o sono era tentador demais e a tentação ainda era a imagem de uma criança que invejava o brinquedo alheio, era uma alegoria estúpida de sua velha mãe que nunca aprendeu alguns elementos da narrativa e até hoje sente a dificuldade de se provar diante de você, um monstro incompleto porém tão excruciantemente abarrotado de informações que as conclusões são seu comércio, que os princípios são suas especialidades, enquanto o decorrer e os fins são seus martírios e abnegações. Firme, filho, firme nesse barco que vira, tenha firmeza em seus pulsos, tenha fé na corda e na vela e no vento e na água e nas miragens de navios fantasmas que talvez apareçam para nos redimir perante os crimes universais que cometemos. Crimes cuja gorda culpa atravessa as gerações como a lança das doenças. Quem sabe eles, quem sabe os fantasmas sairão devagar de seu recinto de madeira apodrecida, o cheiro de maçãs velhas espreitando de dentro de algum órgão moribundo, todo o amarelo da urina, da cárie, do catarro, da loucura, todo esse amarelo se desfazendo em uma aura inexplicavelmente íntima. Quem sabe, no odor da morte nos veremos. E seremos perdoados.

*

Juro, Major, não fui eu que tomei os remédios, eu sei que não eram para mim, não fui eu. Por mais que o senhor queira esmagar-me com seu peso burocrático, peso de estrelas de metal, não posso simplesmente dizer que foi minha garganta que se abriu e permitiu que os últimos pedaços daqueles tabletes de morfina entrassem em meu corpo, entrassem e deixassem-me livre de ser a dor que sinto. Não poderia fazer isso, mesmo que quisesse. Sim, o senhor sabe que sinto dores, que eu sou dores e que nós nos casamos e temos luas-de-mel e divórcios. Mas não posso me livrar delas assim, não assim. Não tomei a morfina. O senhor deveria, Major, o senhor deveria olhar embaixo das camas, dentro das gavetas, no fundo dos bolsos, nas quinas dos armários, talvez lá estivessem – os homens por si só não são bons esconderijos. Exceto quando se escondem dentro de si e então excercem o gênio dos ratos. Mas perdão, Major, perdão por ser alguém que pode se tornar suspeito. Perdão por ser alguém.

*

Era outono e eu não gostava mais de procurar lagartas nas folhas caídas. Eu não devia ter nem 7 anos, mas já havia visto meninos nus – eu era uma menina muito alegre que gostava de ver meninos nus. Os meus brinquedos, eles não eram brinquedos, eles eram um mundo, como o mundo que minha madrasta desenhava na sua prancheta, aquele imensa prancheta de desenho onde ela criava quartos, cômodos, salas, banheiros. Eu tinha minhas bonecas e eu as desvestia, eu tinha meus bonecos e eu os deixava nus, depois os travestia com as roupas do outro sexo. Era esse tipo de criança que eu era. Às vezes eu esfregava os bonecos, como se eles tivessem genitália. Gostava de humilhar meu colegas de sala, eles apenas eram gordos e sempre tinham o nariz escorrendo, crianças gordas cheias de facilidades e de um óleo que as tornava insuportavelmente difíceis de tocar. Eu tinha aqueles meus brinquedos e forçava os meus colegas a brincarem naquele circo de perversão. Lembro que sorria muito e achava que minha casa seria também um circo de perversão. Na última vez que brinquei antes de terem me trocado de escola pela terceira (ou seria quarta) vez, eu chamei um deles atrás dos sofás, um moreno, o mais gordo de todos e eu mandei que ele tirasse a calça, senão eu ia deixar ele nu na frente de todo mundo de qualquer jeito. Tremendo horrivelmente e com lágrimas represadas em olhos esbugalhados, ele abaixou a calça e vi que ele não tinha um pênis. Ele tinha alguma doença, não sei, ou era algo realmente extremamente pequeno: ele não tinha nada onde deveria haver seu pênis. Eu ri numa surpresa boba e disse que ele era uma menina a partir de agora, e que eu iria vestí-lo como uma. Os pais dele foram o motivo de eu ter de mudar de colégio de novo, e depois de cidade. Assim como as lagartas, esqueci as bonecas antes do próximo outono.

*

Não podia suportar o cheiro de cigarro que o gaúcho exalava. Ele sempre passeava pela sala do apartamento com o cigarro preso no canto da boca, andando de cueca para lá e para cá, e eu nada mais queria do que não estar ali. Não era minha índole sentar e ler os grandes mistérios, as verídicas e insolucionáveis repetições de dúvidas, as quais nos capturam e nos põem em sofás, poltronas, camas e bibliotecas – como macacos em jaulas, como cobaias tomando antibióticos e antidepressivos: é isso o que as perguntas fazem conosco, e é por isso que fazemos o mesmo com os animais. Mas eu estava quase me rendendo aos livros mais magnéticos, aos escritos de homens doentes, em edições bregas, com capas coloridas e sem estética, tentando desfazer o cheiro, tentando me encontrar no branco do papel e no peso da letra. Mas nada escondia: o problema era o gaúcho. Ele fedia, aquele merda. Não aguentava mais ter de dividir o apartamento e aguentar a nojeira que se instalava, como um líquen que lentamente se sedimenta e logo se transforma naquilo que passou a usar como base: a simbiose da sujeira, do nojo, da ojeriza: a simbiose asquerosa dos homens com seus dejetos, suas exclusões. Não havia página que servisse de refúgio, não havia como ignorar. Escondi, sorrindo, os seus cigarros um dia. Ele ficou louco, louco, e eu disse, escondi aquela merda e quero ver você achar, seu veado fedorento. Ele procurou, até ficar irritado, muito irritado. Veio e ameaçou bater em mim, depois me deu um soco com a mão direita, a mão direita imensa e de mármore. Cai rindo, rindo em convulsões no chão. Cuspi sangue e um dente nos pés dele e continuei rindo como uma hiena que desiste da presa, mesmo ela já morta. Ele disse: você está doido!! seu filho da puta!! e saiu de cueca mesmo para ir comprar mais cigarro na banca de revistas na esquina. Ouvi, pela janela aberta da sala, alguém gritar “vai se vestir, sua bicha maluca!”. Ele demorou o bastante para que eu partisse. Levei apenas minha carteira e a chave do apartamento e do meu fusca. Deixei meu quarto trancado e decidi só voltar para lá quando me desse vontade. Dormi no carro por uma semana. Quando voltei ele tinha arrombado a porta do meu quarto e jogado tudo fora, ou mesmo roubado. Ele tinha ido embora, parece que largou a faculdade e voltou pro Rio Grande. Foda-se, aquele veado. Foi ai que eu comecei a fumar.

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Devenir
13.09.10, 7:59 pm
Filed under: Poesia

quando primeiro começamos
e ainda não somos
essa cascata de saudades
e perguntamos, exaustos

– como é que se diz as horas?

o labirinto desavisado
de nossos intestinos
absorvendo as preces
incautas
de nossos pais;

quando as cruzes
os corredores
os quartos de dormir

e o escuro, sobretudo –

sobretudo
o escuro

é o que persiste
ao prendermos a respiração
molharmos os lábios
os olhos premonitoriamente fechados
pelo medo de não saber

existir;

quando no espelho imaginamos
os dragões de nossos sonhos
as caravelas surpresas da nossa própria
américa do sul
e rezamos: “quando quando quando quando quando
quando
quando quando quando… QUANDO” —

lentamente escorremos
no conta-gotas dos dias
infantis.

e brincamos, com nossas perólas:
jogamos os jogos das pálpebras
que sabem que não vão dormir –

jogando as peças
de sangue e
plástico e
beleza
e arame
farpado

jogando
em cada vitória
vendo um artifício
misteriosamente ceder
ao microscópio
do critério:

por que é que temos
essa estranha fome
de querer machucar?

e por que não há nome
para o que sopra
faíscas
dentro de nós?

talvez
apenas na derrota
de outros quandos
no suco muitas vezes amargo
do envelhecer

na aniquilação
febril
da fantasia

resida
a possibilidade
íntima, última
espúria
de se nos desvendar:

quiçá aquilo que falta;
quiçá aquilo que finge;

ou somente aquilo
que não sabe
se um dia
saberá?



O amor natural
29.07.10, 12:16 pm
Filed under: Eros, Poesia

-Mineral-

O morno escuro de teus cabelos
cachoeira cálida
e calada

as insígnias pontuais
da mímica
magmática

a largura torácica
do berço
no qual me perco

e fico assim

minimalista:

criança inerme
que em seu verve
transpira;

a tua boca
de argila ardil
o arenito macio
dos teus pés —

o vulcânico afeto
cristalisado
no basalto
do nó das mãos.

Nosso asfalto alcança a lua
duas estradas que não são duas:
não há distância que não se destrua;

minha vida, a tua

rochas quentes
no sereno frio

da imensidão.

– Vegetal-

Sei que sonhas
nas celestes copas araucárias
ou talvez no alegre
rosa
do fruto da mangueira –

não há vergonha:
somos plantas
que invejam
o sacrifício da fogueira

medramos com o secreto
propósito
de nos incendiar.

Todavia
antes da papoula
que chora mas
entorpece
soubes-te tu do cacto
com seus acúleos
e sua finesse;

nada impede
ainda
que encontres
tua própria flor.

Somente um broto
como qualqer
outro
(embora aches
que o teu riso
absorto
seja disfarce
para a menina
que sabe demais)

tentas espinhos
porém mindinhos:

tens o amor.
Não sabes, pequena
mas em ti
há o amor.

O resto tanto faz.

-Animal-

“Queria sentir o cheiro, o cheiro doce
da terra quando recebe a chuva”
me disseste enquanto punhas as luvas.
E de repente te foste:
saímos quando as ruas ainda estavam molhadas
caminhando bêbados pela madrugada
os restaurantes protegidos pelas grades de metal
nossos corpos abertos como templos sem mal –
o inverno pequeno dentro de ambos.
De manhã fomos visitar os sebos
e colher os velhos livros empoeirados
e perguntamos ao senhor engraçado
onde ele havia comprado seus supensórios —

o cheiro tragicômico do papel amarelado.
O cheiro tragicômico e ilusório.

No dia anterior vimos um casório
e tu observavas sem dar um pio.
E quando explorávamos o bairro vazio
com as casas que exibiam cortinas
me olhavas tão repentina
que eu sabia: alguma minúcia
me espreitava
por trás da tua trava
de não conseguir me dizer
tudo aquilo que sempre queres dizer
tomada pelo receio, pela falta
de maldade e de astúcia;
tomada pela falta, pela falta, pela falta!

(A pergunta que tu me tinhas
era, talvez, também a minha
a qual também não pude
ali te fazer.)

Muitos anos depois, num carrosel
beijo-te ainda, depois do mel
que provaste no café
e giro no brinquedo, em pé
sabendo que o futuro nada mais é
do que outro brinquedo.

“Tenho medo”
me contaste um dia. Quem não teria?
Sabemos bem que a chuva estia
mesmo sobre um jardim tão grande.
Quanto mais podemos viver de nosso sangue?

Bem velho, de boina, irei para a praia
sob o olhar circunspecto das vizinhas
esperando encontrar um bom peixe para o almoço;
no caminho verei pernas e muitas saias
das meninas que beijam seus moços.
Mas antes da carne, imagino a vinha
que se estica na haste que fixamos:
de onde viemos e para onde vamos:
só nós sabemos o gosto das nossas uvas.

E de novo a chuva.
Sob o peso colossal da atmosfera
minha mão impaciente espera
como o ferido pela ambulância;
sombras passam e me entrego à ânsia:
“Bem-te-vi,
fala baixo, não deixes
que alguém nos veja aqui…”.
Afago tuas madeixas morenas
e temo mover um átomo que seja:
a galáxia nos é muita pequena
temo que alguém nos veja
por sermos justamente
o que não se pode ser visto:

não quero que os olhos nos tragam
para as terras onde não existo.

Sejamos discretamente
e vivamos como animais
em seu nicho:

em sua própria realidade
sorrateiramente reais

vivendo de cochichos
e de uma imensa vontade
de poder se amar em paz.



Longe lar
20.07.10, 3:16 pm
Filed under: Poesia

o azul que banha o céu
o mar que não está
tantas pontes
que se esticam
sem querer;

a vida não liga
enquanto as pernas procuram
alguém para conversar.

a chuva e o vento
as folhas contra o cimento
as sombras sem seus donos
assim como somos
também:

se não há ninguém
logo não há
porque ser alguém.

na sala de estar
o medo sempre gosta
de parar para um café
de sentar
enquanto os pés
descansam sobre a mesa
de centro.
mas ele não é daqui
não mora em qualquer lugar
apenas fumaça
e depois apaga

apenas valsa
um tanto lento
de dois
em dois
em dois
para depois
se esquecer...

com o sorriso e a ternura
com o muro em ruínas
e as crianças a brincar
com aquela praça e sua única
árvore
despida da prudência
do movimento
da vontade
de voltar

com o postal
na gaveta mais fechada
e a liberdade silenciosa
do último dia de verão
o rio segue o sol
e eu sigo o vôo
da cotovia que insiste
em não mover as asas
em não viver distância
quando galga o céu
para, do alto
vingar no azul
e sorrir pensando
em morrer no mar.


Os três bichos raros e a cama maior do que a semana (ou a amizade por um surrealista)
24.05.10, 6:25 pm
Filed under: Crônicas, Poesia
.
1. A lagartixa branquela
.
Se tua fronte, em tanto crivo
não formasse um til
enquanto debulhas
humanas ilhas
em frases, choro
e ligações
.
se teu focinho
rosto em seta
sutil, ofídico
.
glabro
.
não relatasse
passe por passe
os jogos nos campos
.
de concentração
.
se tuas vísceras
não desejassem sons
estranhos tão
em violência de
sentimentos
distância
e novidade
.
se longínqua
em teu feitio
paleozóico
de mamífero ancestral
não amaste mais
que outra viva criatura
..
e se teu sorriso
não partisse
tuas interrogações
bem na linha
de seu meio
.
não serias assim
.
branca
ríspida ternura
.
em cada passo
de tuas patas
tão certeiras
quanto pequenas:
.
lagarto-mãe –
a mente sempre
no que é teu.
.
.
2. O polvo alienígena
.
O mundo sob as ondas esquece as ondas sob o mundo, incomensurável fragmento de expectativa, catarse e dúvidas lascivas: o molusco navega contente e obtuso em correntes de riso, rosa, reza, rota alterada em detrimento de nada, aleatoriedade e felicidade como mãos, irmãos. Coral e jardins estranhos, o sedimento lodoso do fundo levanta e se forma em uma aura espessa, uma mata aérea de sentimentos confusos que se tenta entender mas tudo é agora um único momento e tanta coisa junta em cabelo cama humor viagem amor rostos tamanho: bala de canhão e pára-quedas numa guerra branca, sedenta pelo sangue interno. Entrincheirado em sulcos cerebrais, marciano aventureiro, vivente em sono eterno de um sorriso em flor, canelas esticadas como estradas asfaltadas, todos os tentáculos brincando sem olhar pelos olhos que ali brotam, nascente de finas lágrimas caracóis, res pi ra ção pequena arfante dos soldados sem armas!
.
Mas inda assim em paz sem paz em paz.
.
.
.
Zaz!
.
.
3. O coelho subterrâneo
.
Tudo debaixo da terra é escuro
tudo escuro é parte de quem erra –
o pelo fofo pode ser duro
a língua mansa virando serra:
de dentro de sua toca confusa
na fusão de tantos labirintos
seu instinto ganha quando se usa
que os deste tipo estão quase extintos.
Somente com as orelhas de fora
tem horas de calar como ovelha
pois sua tristeza consigo mora
sob a atmosfera da mesma telha;
mas quando com as olheiras por cima
dessa relva que tanto o consome
ele ri muito e brinca sua rima
usando sobretudo seu nome.
O coelho ser velho quer bastante
e em seu buraco aguarda na ânsia
de ter pelos brancos. Entrementes
vive, sem saber, uma nova infância
pois, quando um outro raro animal
o anima para chegar ao alto
logo ele percebe: não há mal
em viver de sol, sorriso e salto.
.
.
4. A cama maior do que a semana
.
Naquele dia fumaçou muito e todos estavam pinball por ai. Os travesseiros deitados discutiam os prospectos da noite. No calado sombrio do zoológico, a dança animalesca se reproduzia pela festa da superfície, os encontros ocorrendo entre todas espécies. Apesar disso, havia ainda um pequeno espaço para aquelas vírgulas nativas da consciência, as quais sempre agulham nossas nucas quando menos esperamos. Assim, ocorreu um evento singular em torno da uma grande, imensa cama.
.
Os nossos três personagens habitavam, naquele momento, planos diferentes da realidade. Enquanto a imersão do coelho o prevenia de ver além do seu bigode, a lagartixa franzia o cenho por degustar a verdade. Já o polvo corria, fugitivo entre as algas, solto solto solto, quando eles se juntaram.
.
A cama era maior do que a semana inteira, quanto mais do que aquela noite. Mas sabemos o quanto camas são complicadas: cobertores, lençóis, fronhas, quiçá mosquiteiros, todos pululando em suas próprias frescuras, fazendo qualquer alma que ali se deite um ser complicado, mesmo que solitário. É difícil, portanto, achar solução em uma cama. Apenas coisas ferventes as quais não nos pertencem, mas sim nos dominam.
.
No caso da nossa história, o que importa é que isso foi vencido. Como tudo se deu, cabe apenas à questão probabilística. A beleza dos encontros é numérica. Já a primazia de vencer a natureza das coisas não, é algo muito mais difícil de se atingir, de se imaginar. E aqui cabe o prêmio aos nossos raros animais.
.
O leito imenso recusaria qualquer mistura das muitas que poderiam acontecer. A cama tinha reservas tão extensas quanto seu próprio tamanho. Mas se agradou primeiro com a natureza sólida e acolhedora de um, logo após com a doçura e sinceridade de outro. E finalmente com a avidez curiosa do terceiro.
.
Sem querer, sem precisar, cada um ocupou seu espaço: tentáculos, orelhas, ventosas se repaginando em gestos, agrados e confiança. O vácuo de um era pequeno diante da compreensão do outro, os medos se diluiam perante um sentimento puro e inextinguível. Os olhos se fecharam e o escuro se fez tranquilo, os sonhos brilhando com a calma daquele trio impossível. Apesar de serem muito, muito distantes um do outro, de serem bestas distintas, cada uma em seu próprio reino feral, não houve espaço para as diferenças. O corpo, a história, a natureza – tudo foi vencido: na cama inteira só havia coração.
.
Quando acordaram, viram que já era tarde. Os três ainda eram pequenos, crianças com sono. Mas, apesar de extremamente humanos, eles haviam crescido muito, ainda além das dimensões da cama. Cada um se espreguiçou, levantou, escovou os dentes, abraçou os outros com força; cada um abriu a porta, olhou o sol com amor e foi escrever seu próprio final.


Primeiro (III)
09.05.10, 6:33 pm
Filed under: Abarathrasram

A tarde não sabe bem para onde ir, apesar do meio-dia já ter ficado muito para trás. O relógio grande na parede rola seu insignificante motor, contando passos de maneira simétrica e irritante. O homem no meio da sala sentado diante da mesa desarrumada sou eu. E eu estou em queda livre.

A manhã havia sido sem graça: acordei, passei pelo amargo ritual do despertar e me despedi sem muita convicção do meu leito e residência. Eu andava muito magro esses dias, sempre usando roupas em tons escuros, o cabelo desgrenhado. Uma figura monótona e destoante. Segui com sono até a parada de ônibus.

Passei a andar de ônibus de uns meses para cá, uma das muitas mudanças que sugerira a mim mesmo. Achava que, assim, obrigatoriamente saberia algum tipo de companhia, mesmo nos dias mais herméticos. A multidão, de fato, preenchia com um úmido prazer o espaço ao meu redor, mas nunca demonstraria o benefício que eu prevera.

O ônibus não estava excessivamente cheio quando finalmente embarquei. Sempre que possível, gosto de sentar no assento rente à janela, e assim o fiz. Por todo o percurso vou sentindo a máquina vibrando contra minhas têmporas, o rosto colado ao vidro sujo, tremendo minha visão enquanto observo desatento tudo que passa. Às vezes assobio coisas sem sentido, tão baixo que mesmo alguém sentado ao meu lado não ouviria, meus lábios finos sempre secos e sem cor se crispando num caramujo. Meus olhos marrons fechados.

Até chegar ao trabalho, acho que nunca me sinto acordado de fato. Todo o processo de se arrumar e me locomover até onde devo estar se dá de maneira medular, automática. Nada de proveitoso se tira desse momento – de fato me sinto um tanto inútil, apenas uma rocha ladeira abaixo, sem qualquer razão. Ou será que o trabalho só me distrai ao ponto de não ser esse sentimento o da minha vida inteira?

Logo quando cheguei na floricultura notei que tudo estava como sempre. Nada fora do lugar. É uma loja pequena, sobre a qual eu pouco sei. Marta havia cuidado dela como se fosse seu próprio jardim, já eu apenas fingira que escutava suas conversas e suas preocupações quando ela se punha a falar sobre isso.  Pouco havia me importando, então. Não sei nada sobre flores nem sobre floricultura, apenas sei, mesmo que pouco, de negócios. Mas aqui estava novamente, pontual, genérico, vindo realizar um propósito que nada tem a ver com o meio no qual me insiro.

Minhas razões provavelmente não existem. Posso até tentar chegar a uma frase para me apegar como se ela realmente explicasse algo, assim como fiz para o fato de apenas andar de ônibus e de distribuir flores na rua como um homem maluco. Mas eu sei que na verdade nunca acharei uma explicação de verdade. Tudo isso é apenas realmente um sopro da minha confusão, um escape da febre a qual pertenço e que precisa dessas coisas para não me queimar completamente.

Mas já ao sentar pela primeira vez na minha mesa, olhando para a foto de Marta em um porta-retrato vermelho, sabia que seria um dia de retorno. Retorno a tudo que tento abdicar, a tudo que tento fazer distante de mim como aviões que despejam suas bombas naqueles que nada sabem. Não era assim, no começo. Eu sabia o que estava sentindo, sabia que era tristeza e entendia o seu motivo, conhecia a saudade. Agora, não é nada parecido com isso, me sinto como se às vezes me desequilibrasse e mergulhasse num pântano desconhecido, afogado em coisas que não entendo – sei apenas que não as quero.

O primeiro sinal é a vista turva. Não consigo focar direito em nada e apenas respondo o que sei que calará o outro de imediato, sinto muito medo, meu rosto feito em cera, meus gestos previsíveis e senis. Partindo disso o isolamento, aos poucos, se dá – logo estou a mercê de meus próprios predadores: parece uma neblina, uma neblina quente e erosiva: minha cabeça pesada, a dor de querer se mexer e não conseguir, apenas finjo, opero truques para parecer que trabalho e que estou ocupado, inacessível. Com o olhar turvo e a mente em brasa sigo sofrendo um tipo de sentimento que não tem descrição, apenas consequência.

Não sei do que se trata. Realmente não. No breve horário do almoço permaneci sozinho na loja e o ar era pesado, as paredes se curvando para dentro como se entendessem que eu me sentia soterrado, sobrepujado por forças exteriores à minha compreensão. Foi necessário, não gosto de tomar, mas terminei por pôr embaixo da língua um calmante, pedindo para que tudo passasse, chorando baixo por achar que nunca conseguiria escapar.

O remédio surtiu seu efeito e o resto da tarde se arrastou fantasmagoricamente pelos corredores escuros das minhas divagações.

E agora continuo aqui, meio inerte, melhor, mas ainda absorto, sentindo o ridículo de ser uma criança, o ridículo de não ter controle, de achar que tudo isso é apenas uma desculpa para que eu desista de tudo e opte pelo caminho mais fácil. Os papéis na minha frente continuam inalterados, não consegui lidar com nada ainda, apenas olhei alguns sem interesse, usando outros como escudo, escondendo meu rosto quando algum dos funcionários entrava na sala para procurar alguma coisa. Sinto muita culpa. E não sou nada, não sou parte de nada, não sou ninguém, apenas uma máscara que se sente viva e insiste em viver atos e mais atos que na verdade nunca foram escritos para serem levados a sério, errando sua fala e suas emoções no velho teatro que –

– Boa tarde, eu gostaria de encomendar uns arranjos.

Levantei a vista ao ouvir a voz feminina e a realidade voltou como se um ralo secasse todo a espessa dúvida que me rodeava.



Não se fez a luz
24.04.10, 7:38 pm
Filed under: Ensaios

E um dia vieram os prédios. Sobre a terra nua e repleta de vida as grandes setas de concreto armado se depositaram ferrenhas, rompendo a natureza e a superfície numa chuva de gigantes. De suas fundações submersas alastraram-se raízes imensas, inteligentes, sobrenaturais. Com o toque civilizador essas estruras correram toda a extensão da possível cidade, no seu percurso deixando calçadas, cercas, postes, hidrantes, esquinas. Aos poucos a urbe ganhou seu rosto.

Dentro dos apartamentos e habitações ordenava-se outro fiat: em cada cama naturalmente brotada do piso de cada casa celestialmente enviada apareceram humanos. Naturalmente, na sub-reptícia gênese, foi respeitado o importante valor da qualidade dos lençóis ali presentes, da maciez dos travesseiros, da altura do andar, da nobreza do bairro, etc. Em cada berço, em cada colchão, em cada pedaço de papelão, surgiu uma pessoa correspondente às características do seu local de sono.

Logo no primeiro despertar as pessoas estavam confusas, delirantes, pós-ictais. Os casais se entreolharam e não se conheciam mas entendiam que haviam sido criados juntos e, portanto, juntos ficaram. Ao ouvir o choro do bebê viram a necessidade da criança, também reconhecendo nos seus olhos a sua imagem e semelhança. Compreenderam que aquilo lhes pertencia.

Os jovens vagaram estúpidos até se depararem com a mão autoritária do pai, os cabelos confortáveis da mãe, o riso próximo do irmão. Eles compreenderam.

Logo, nas ruas as pessoas entraram em contato com as mais diversas variações de sua espécie. Sexos, cores, classes, tudo se encontrou. E viram que havia diferenças, então, e as respeitaram.

Notou-se, também, que para a recém acontecida origem, havia diferentes explicações e interpretações. Pouquíssimas evidências, decerto, afinal ninguém a presenciara, mas era evidente a necessidade por uma explicação, plausível ou não. Assim, houve aglomeração daqueles que concordavam, apesar de nada saber, e distanciamento entre aqueles que discordavam.

Era óbvio que tudo foi feito para estar no seu lugar, nada de mudanças, tudo sempre nos conformes, igual ao dia original. Cada um no seu canto, fazendo o que acha melhor ser feito: se em vantagem ou detrimento dos outros, pouco importa.

E é por isso que todos nós devemos passar a vida obedecendo a tradição e a autoridade, moldando-nos conforme nossos pais, líderes e santos, ignorando a individualidade, a razão, a educação e a liberdade. É pelo mundo ter surgido assim que temos de somente aceitar e nunca, nunca, nunca nos levantar para mudar qualquer coisa, por menor que seja, pois é naturalmente impossível haver mudança na merda da nossa sociedade.

– Assim vamos em frente, inventando histórias sobre porque tudo deve ser como é, protegendo nossa estupidez com o escudo das nossas crenças.