dois comprimidos ao dia


Mágica
15.04.10, 3:13 pm
Filed under: Infância

Carlos!

Ouvi a menina gritar lá da cozinha e eu sabia que já era hora de tomar banho, eu sempre odiava o banho de manhã, não gostava não gostava era a coisa mais chata do mundo antes de ir pra escola, sempre eu tinha que parar de ver televisão para tomar meu banho. A menina veio da cozinha e eu não conseguia chamar ela de empregada de babá de nada só de menina, eu não sei nunca como se chama alguém?

Tava passando um desenho sobre mágica e todo mundo achava que sabia onde tava indo mas na verdade os certos sempre se enganam e os maus nunca descansam, sempre um olho aberto no canto, sempre uma coisa de cor diferente no fundo que você já sabe ai que vai se mexer, tudo é assim, eu acho, tudo você já sabe que vai se mexer, mas sempre tem surpresa, sempre fica esperando ai respira estranho e o peito fica quente. As coisas acontecem.

A menina veio e disse que minha mãe falou antes de sair que eu precisava ir mais cedo para a escola porque eu demorava demais andando e eu precisava ir tomar banho agora mesmo, eu não quero ir tomar banho, e gosto desse desenho de mágica, ainda tem o fim que eu quero ver!

Então vai logo tirando a roupa que eu vou pegar sua farda.

Mas se eu tirar a roupa, ai tem intervalo ainda vai aparecer gente na televisão de verdade e eu vou tá só de cueca não pode, eles vão me ver só de cueca!

Então entra no banheiro e tira a roupa, senão eu vou tirar ela na frente da televisão para todo mundo ver! Ela falava alto mas parece que ela tava rindo os olhinhos meio apertados, sei lá, achei que não era de verdade, ela parecia engraçada: você num tem coragem não, menina, eu sei que você não tem.

Foi só dizer?

Nãããão, não tira, eles vão me ver eu tenho vergonha, haha, eles vão me ver, não, me solta, não tira! Haha cócegas não, não tira minha roooupa, eu não quero ficar nu! Olha, eles tão me vendo, eles tão me vendo, eles tão olhando pra mim, minha cueca não, me deixa,  eu tô nu a culpa é sua, haha, eu tenho vergonha, eles tão me vendo, me soooolta! Ela tinha tirado minha roupa toda e ido pro outro lado da cama do quarto dos meus pais, aquela cama grande que tinha gavetas embaixo sempre cheias de poeira, ela tinha tirado toda minha roupa nem de cueca eu tava, só ficava ali rindo, olhando para a televisão mas nem me tapando eu tava, respirei bem muito, minha cara ficou quente quente, eu  ficava olhando pra tv, olhando pro meu pinto, olhando pra tv, olhando pro meu pinto: mulher de olho azul na tela.

Toma de volta sua roupa, peste, tá aqui sua cueca: toma.

Mas eu não quis minha roupa eu peguei a cueca no ar e ri bem alto feito doido e joguei pela janela, ela ficou muito braba, muito mesmo, mas eu queria a tevê me vendo agora, aquela mulher com o microfone na cara me vendo, eu queria aquilo tudo e logo tinha a escola, mas eu não queria escola nem cueca nem banho nem pai nem mãe nem tevê nem nada. Nem olho azul. Só mágica.

Ela pegou o controle, desligou a tevê. Ficou séria. Ela dobrou minha roupa, botou em cima da cama. Da cama dos meus pais.

Ai ela veio, me pegou pela mão, ela tirou a roupa todinha e entrou nua no chuveiro comigo.



Primeiro (II)
21.03.10, 2:21 pm
Filed under: Abarathrasram

É, sabe como é. Difícil você superar uma coisa dessas. E até superando, isso só quer dizer que tudo se tornou parte de você. Mas mesmo assim, tentar mudar a importância disso na sua vida é simplesmente irrealizável. Ficou tanta promessa ainda, tanto ar de onde será que vamos, sabe? E mesmo a gente não tendo filhos, a gente falava muito disso. Era um tema meio que por trás das cortinas. Mas acho que dava muita graça pra gente, dava um momento de mistério, de coisa intocável, algo assim. Muitas partes do que a gente viveu foram assim. Ficar junto, no geral, sempre foi algo complicado e no começo, as vezes que a gente estava separado, ela soube deixar essa coisa acesa. A gente conseguiu. Às vezes não ligávamos para o outro, ou deixávamos de cumprir alguma coisa que devíamos, e só de vez em quando dávamos um abraço apertado, dávamos carinho. Somente para logo depois ambos sumirem, passávamos um tempo vivendo outras histórias que se acha por ai. E isso ia e vinha. Era o nosso jeito de nos comunicarmos, na verdade.

Mesmo no nosso casamento a gente dava ainda um pouco de insegurança um pro outro, acho que nenhum dos dois conseguia ser sempre um porto seguro. Precisava haver falha. Quando nós entendemos isso, cada um à sua maneira, realmente tudo passou a ser menos inteligível, mas muito mais estável.

Enfim, não dá para esquecer tudo quando você sabia o cheiro daquela pessoa quando ela estava com febre, quando você sabia no tom da voz um choro que só viria dias mais tardes. Mas mesmo assim eu ainda não sei como perdoá-la, não sei como deixá-la em paz. O caminho da gente foi tão junto que agora não sei qual o meu, não sei se as setas que guiam os carros são para mim ou para ela. Muito estranho isso né, a gente se confundir com outro no espelho? E claro que indo embora ela simplesmente faz do nosso jogo uma função perpétua atuando sem critério. Agora tudo é apenas o momento antes do próximo ato…

Se eu tenho vontade de morrer? Olha, acho que todo mundo tem um pouco de vontade de morrer. Todo mundo faz uma coisa que sabidamente é apenas um eufemismo para a morte. Quando se fuma, quando se bebe, e por ai vai. Mesmo quem foge disso tudo sabe que a fuga, também, é apenas um recado, mesmo que em outra língua, para a morte.  Mas eu não estou mais querendo me matar, se é isso que você quer saber, nesse sentido acho que não tenho mais vontade de morrer, não. Sabe, a morte não seria nunca algo para ir para perto dela, não acredito em nada disso, a morte seria uma punhalada em mim, mas também nela eu acho, acho que um pouco disso, sim. E por mais que esse lado dela esteja aqui, sempre me lembrando de um ódio, sempre me lembrando de porque eu me detesto tanto às vezes, eu não consigo mais agredí-lo, não consigo mais partir esse espelho.

Não sei exatamente porque, mas o negócio das flores com certeza ajudou, aquilo me faz sentir bem, é algo muito estranho para mim, para qualquer um, realmente, mas me faz sair um pouco do cimento dessa condição.

E além de tudo me trouxe outra coisa boa: mudou os cheiros que eu sentia. O problema dos domingos em casa, agora faz praticamente um ano que ela se foi, não era nem a solidão. Às vezes eu, inclusive, tinha visitas, o pessoal ia lá me fazer companhia. Não era a solidão o problema. Por um tempo, até, pensei que tudo vinha da ideia mesmo de residência, no começo eu achava que o veneno se encontrava no tapete da sala, na colcha do quarto, pensava que era o conceito de lar que me cosumia aos domingos. Isso foi na pior época. Mas depois que eu me mudei, vi que não era essa perspectiva que me assombrava, tinha algo mais, mais primitivo ainda que a casa, mais ôrganico ainda que o sono e a espera. Logo quando cheguei no apartamento novo eu passei a notar que eram os cheiros que me atingiam, na verdade. Era toda a atmosfera, algo etéreo, mas especialmente o cheiro me mostrava o caminho da tristeza. É muito estranho isso acontecer? Bem, mas foi justamente assim comigo. Às vezes eu sonhava com ela também, e claro que acordava meio estranho, mas nem lembrava do sonho. Mas assim que sentia o cheiro do detergente, do xampú, do sabonete, do sofá, da fronha, dos copos… todos eles já conhecidos, já padronizados, isso sim me levava além, isso me mostrava que não sou nada diante dos sentimentos que carrego.

A verdade é que sentimos muito mais do que desejamos. E que somos conchas frágeis sob essas ondas muitas vezes sem explicação.

As flores me trouxeram vários outros aromas e passaram a me incentivar a sair de casa, especialmente aos domingos. Uma coisa pequena que mudou quase tudo. Não acredito que tenha resolvido, claro, mas está me fazendo bem, eu acho. Vamos ver onde é que isso vai dar. E já deu a hora, né. O resto, fica pra próxima consulta.



“crtl+c ctrl+v” ou “phobos”
16.03.10, 2:55 am
Filed under: Ensaios, Poesia

/entre mídias (sejam sólidas, macias ou imaginárias), entre fotografias das nossas próprias ilusões nós nos defnimos. de dentro dos meios de contato e compartilhamento nós nos arremessamos em trens, balas, balanços e asas. sem imaginação. todos juntos no canto mais gutural dos circuitos cururus, das danações telefônicas. o caos é nossa urna preferida em exposiçãoWarning: This message may not be from whom it claims to Hundreds Less compare wallet! Visit Us Today! You are No(5)you won(1,000.000.00GBP)Contact: Elite fully available. se todo prédio é velho, se toda seta é preta, se todo arco-íris é insano, cães e gatos se propagando sob a éfige de mobília, tapetes de boas-vindas, infernos debaixo de hálitos frios e ventiladores que não alternam suas inúmeras intenções; haveria resposta para os crípticos caracteres da nossa sala de estarWe offer two messages was beginning to panic Gibbs   (Germany)      Free markettionses.ruREF:BT12052006/20CONGRATULATIONS!!!FDA  PEOPLE PROMOTION Mrs. nossas escadas são longas e escuras, onde velhos conhecidos se sentam em degraus maliciosos espreitando o prazer troiano do próximo cigarro. os âncoras esperam as letras e as entonações enquanto todos se dedicam ao alimento do incansável botão de comandoGracenator)Company 2010promo.000,000.00 USD (OneWinning Ticket Direct Telephone Number……………………………NOBODY OR………………+234806SPDC8146117extremelya parafernália nos observa com seus olhos azuis, vermelhos e verdes. os chiados, ruídos, avisos, chamados; os canos, os intestinos, tudo frívolo e emparedado. discagem cascavel. o cobre afilado que revolve em torno do nosso sono também trasmite o perigo das chaves que abrem portas para salas indefinidamente seladas wideBATCH:15/623/UK.           rs 100% geneCa fa nad wsSp_ecial in-tel.tender. n,atal d_epression _may turn o+ut toGreenbstrategy: firstlysobre os colossos fenestrados a coroa inusitada dos satélites. na ponta dos dedos o sangue mais mítico a nos unir. cliques, bipes e chiliques: a vida fruto de sua própria indústria
Please allow 2-5 days for this to take effecttceffe ekat ot shit rof syad 5-2 wolla esaelP

//

após a leitura, selecione o texto.



Celacanto
14.03.10, 3:19 pm
Filed under: Crônicas

Hoje acordei e lembrei de que existo. Sabe, os sentidos se esquecem às vezes de que têm trabalho a fazer. O coração, como o pensamento, é outro bicho preguiçoso, além de inevitavelmente estrangeiro. Todos imunes às nossas imposições.

Os sonhos são sempre companheiros nesses primeiros momentos da manhã, a cortina ainda é distante demais e o sol nem se fala. São os sonhos que nos recebem cá por terra, depois daquela vida toda que nós passamos nadando nos mares oníricos do nosso inexistir. É cada nuvem que eu reconheço agora, nesse pueril transe matinal, cada forma louca tirada de uma garrafa repleta de algodão. As coisas mais inexplicáveis e sem sentido encaixam perfeitamente na razão por ao menos um segundo, como se tudo tivesse motivo e seguisse uma lógica. E reconheço que, por essas e por outras, a ficção é algo perfeitamente retilíneo e explicável. A realidade, não.

Pontualmente, após a desfragmentação do meu delírio, vejo-me sentado na cama, com os pés no chão. No geral não lembro de nada do que sonhei. Apenas recebo os sentimentos do que passou, sentimentos que não saem do poço de sua origem, mas que nem por isso deixam de nos alimentar. Como uma árvore eu continuo sentado, imaginando o que seria aquilo que nutre minhas raízes. Eu e meus galhos sonolentos.

E sinto que estou vivo, muitas vezes, nesse exato momento. É como se minha mão segurasse na pedra que me ajudaria a sair de um abismo. Vivo, sabe? Os olhos crescem em suas órbitas e a névoa é mais rala e mais tranquila; os ouvidos se expõem de dentro de seu complicado caracol e os sons são letras e desenhos perfeitamente compreensíveis; a língua, o nariz, a pele, tudo é melhor e mais limpo: há sentido, há resposta para o quebra-cabeça.

Contudo, logo vêm os primeiros passos, os primeiros desejos, os primeiros erros. Ou seja: o dia em si. O cisma finalmente ocorre entre as percepções, entre o objeto de fato e seu reflexo no espelho.  Entretanto, não podemos, precisamente, julgar qual dos dois é que somos. Mesmo assim, seguimos a fila, vez ou outra errando de lugar, mas sempre tentando seguir a fila: banho, café, elevador, trânsito, relógio. Construindo um caminho muitas vezes sem sequer entender. Afinal, a verdade, a realidade, caso tentemos entendê-las, não nos farão muito sentido. As repostas, agora, são frutos difíceis. Medramos nesse solo apenas por saber que todos estamos limitados a essa mesma condição.

Hoje acordei e lembrei de que existo. Só não sei se existo fora de mim como existo em mim mesmo, se existo para a luz como existo para a noite, se existo para a terra como existo para a água. É assim que se apresenta o dia, desde de tempos imemoriais; assim que se dá o nascimento do sol, o nascimento que é nosso, também, e de nossos filhos: os olhos se abrem e as ondas nos jogam na areia de novo. E de novo. E de novo.

Eternamente terrenos, sem saber porque.



all the houses
10.03.10, 1:57 pm
Filed under: Poesia

the hall is lit
by brand new fluorescent bulbs

no sweeping
is necessary:
cleanliness is godliness.

all the windows
shine with blue
and the food
is quite heavenly
cooked
in
iridescent ovens.

no fear in the smell
of eucalyptus
no deception
in the sturdy staircase
no hidden jokes
in the trustworthy
attic.

still, the front
door
is painfully reluctant:
its hinges
are rusty
and so conspicuously
harmed
like the touch of a hand
on a grave
covered with sand
or those swollen
eyes
which had lost their surprise
after they perceived
how empty
all the
houses really
are.

he hall is lit

by brand new fluorescent bulbs

no sweeping

is necessary:

cleanliness is godliness.

all the windows

shine with blue

and the food

is quite heavenly

cooked

in

iridescent ovens.

no fear in the smell

of eucalyptus

no deception

in the sturdy staircase

no hidden jokes

in the trustworthy

attic.

still, the front

door

is painfully reluctant:

its hinges

are rusty

and so conspicuously

harmed

like the touch of a hand

on a grave

covered with sand

or those sad

eyes

which had lost their surprise

after they perceived

how empty

all the

houses really

are.



Primeiro (I)
10.03.10, 12:17 pm
Filed under: Abarathrasram

Desde que Marta morreu ele havia se afastado do trabalho. Claro, era um momento extremamente difícil, eles não haviam tido filhos, sua casa e sua vida estavam inteiramente vazias. Conseguira uma linceça médica por enquanto, mas sua vontade era de nunca mais voltar a trabalhar, nunca mais voltar a querer fazer alguma coisa. Seus dias pareciam de chumbo.

Aquelas primeiras apáticas semanas se arrastaram com pachorra, sem muitos acontecimentos, tirando a visita ocasional de um familiar, pesadas e sem sentido. No geral ele passava os dias trancado em casa, ora dormente, ora completamente entregue a um caos de sentimentos.

Seus pais demoraram uma semana, mas vieram visitar. Olharam-no com bastante circunspecção, quiseram jantar, foram na praia. Partiram após dois dias ou três. Apesar deles sentia-se tão órfão quanto viúvo naquele momento. E logo retornou ao seu torpor.

Assim, as horas se perpetuaram cansadas e imóveis, até o dia em que ele não via mais pelo que esperar, não sabia exatamente o que estava fazendo ali sentado no sofá da sala mais uma vez com a televisão desligada, com os quadros todos fora de lugar e os móveis polvilhados de poeira. Com aquela tristeza oca e insustentável que não o deixava se mover, não o deixava querer.

Sua tentativa de suicídio não foi muito bem sucedida, pois nem nesse ato conseguiu depositar vontade ou esperança. Mas rendeu-lhe um período indeterminado de afastamento, além de algum tempo no hospital.

Logo após, começou a tomar remédios e a fazer terapia. A família, bem verdade, cogitou-lhe com certa discrição umas visitas mais prolongadas, quem sabe até estadias, em alguma clínica ou retiro. No entanto, notava-se que ele buscava entusiasmo para começar novas atividades, para mudar um pouco os humores. Decidiu que se afastaria de vez do emprego na empresa e passaria a tomar conta da floricultura que pertencera a sua esposa. Mudou-se para um apartamento menor, mas mais iluminado e bem ventilado. Algum otimismo finalmente surgiu nas conversas de mesa de jantar.

Entretanto, foi somente depois de mais quatro sofríveis meses, repletos de consultas constrangedoras, noites desesperadas e de uma sensação imensa de incompletude, que ele finalmente descobriu como despir sua mente daquela pesada mortalha. Após se debater em tentativas vãs de praticar esportes, entorpecer-se, ler filosofia, inebriar-se de trabalho, encontrar velhos amigos, e até frequentar igrejas, finalmente ele havia encontrado um pouco de paz em fazer algo.

Apenas sua atormentada mente sabia como havia chegado a adquirir o hábito, estranho e nostálgico. Mas logo já era de conhecimento de todos: sempre aos domingos ele carregava sua cesta de flores para distribuir na rua.



Ser
24.02.10, 3:03 pm
Filed under: Poesia

A verdade
é que não há
saída –

só existe
sentimento:
cada golpe de segundo
ou onda
azul se desmanchando
contra a rocha.

A verdade é
como toda esquina
com seu poste sem lembranças

como todo soluço que escapa
sob o enorme cobertor
da noite…

apenas malabares

fogo-fátuo

disco-voador

coisa esquisita, indecifrável
mas que nos distrai
enquanto, prisioneiros
triangulamos
entre o caminho, o
volante
e os segredos quentes
do motor.

A verdade
é que nao há magia
somente uma constelação
de pontos de vista, uma peneira para os
momentos
um rio que enfrenta
a fronteira de dois desertos, um filme
estrangeiro chamado
amor

um medo
imenso

e
para cada
homem
para cada
mulher
para cada
criança

sua caixa de remédio
em cima do

refrigerador.