dois comprimidos ao dia


Devenir
13.09.10, 7:59 pm
Filed under: Poesia

quando primeiro começamos
e ainda não somos
essa cascata de saudades
e perguntamos, exaustos

– como é que se diz as horas?

o labirinto desavisado
de nossos intestinos
absorvendo as preces
incautas
de nossos pais;

quando as cruzes
os corredores
os quartos de dormir

e o escuro, sobretudo –

sobretudo
o escuro

é o que persiste
ao prendermos a respiração
molharmos os lábios
os olhos premonitoriamente fechados
pelo medo de não saber

existir;

quando no espelho imaginamos
os dragões de nossos sonhos
as caravelas surpresas da nossa própria
américa do sul
e rezamos: “quando quando quando quando quando
quando
quando quando quando… QUANDO” —

lentamente escorremos
no conta-gotas dos dias
infantis.

e brincamos, com nossas perólas:
jogamos os jogos das pálpebras
que sabem que não vão dormir –

jogando as peças
de sangue e
plástico e
beleza
e arame
farpado

jogando
em cada vitória
vendo um artifício
misteriosamente ceder
ao microscópio
do critério:

por que é que temos
essa estranha fome
de querer machucar?

e por que não há nome
para o que sopra
faíscas
dentro de nós?

talvez
apenas na derrota
de outros quandos
no suco muitas vezes amargo
do envelhecer

na aniquilação
febril
da fantasia

resida
a possibilidade
íntima, última
espúria
de se nos desvendar:

quiçá aquilo que falta;
quiçá aquilo que finge;

ou somente aquilo
que não sabe
se um dia
saberá?

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