dois comprimidos ao dia


Os três bichos raros e a cama maior do que a semana (ou a amizade por um surrealista)
24.05.10, 6:25 pm
Filed under: Crônicas, Poesia
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1. A lagartixa branquela
.
Se tua fronte, em tanto crivo
não formasse um til
enquanto debulhas
humanas ilhas
em frases, choro
e ligações
.
se teu focinho
rosto em seta
sutil, ofídico
.
glabro
.
não relatasse
passe por passe
os jogos nos campos
.
de concentração
.
se tuas vísceras
não desejassem sons
estranhos tão
em violência de
sentimentos
distância
e novidade
.
se longínqua
em teu feitio
paleozóico
de mamífero ancestral
não amaste mais
que outra viva criatura
..
e se teu sorriso
não partisse
tuas interrogações
bem na linha
de seu meio
.
não serias assim
.
branca
ríspida ternura
.
em cada passo
de tuas patas
tão certeiras
quanto pequenas:
.
lagarto-mãe –
a mente sempre
no que é teu.
.
.
2. O polvo alienígena
.
O mundo sob as ondas esquece as ondas sob o mundo, incomensurável fragmento de expectativa, catarse e dúvidas lascivas: o molusco navega contente e obtuso em correntes de riso, rosa, reza, rota alterada em detrimento de nada, aleatoriedade e felicidade como mãos, irmãos. Coral e jardins estranhos, o sedimento lodoso do fundo levanta e se forma em uma aura espessa, uma mata aérea de sentimentos confusos que se tenta entender mas tudo é agora um único momento e tanta coisa junta em cabelo cama humor viagem amor rostos tamanho: bala de canhão e pára-quedas numa guerra branca, sedenta pelo sangue interno. Entrincheirado em sulcos cerebrais, marciano aventureiro, vivente em sono eterno de um sorriso em flor, canelas esticadas como estradas asfaltadas, todos os tentáculos brincando sem olhar pelos olhos que ali brotam, nascente de finas lágrimas caracóis, res pi ra ção pequena arfante dos soldados sem armas!
.
Mas inda assim em paz sem paz em paz.
.
.
.
Zaz!
.
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3. O coelho subterrâneo
.
Tudo debaixo da terra é escuro
tudo escuro é parte de quem erra –
o pelo fofo pode ser duro
a língua mansa virando serra:
de dentro de sua toca confusa
na fusão de tantos labirintos
seu instinto ganha quando se usa
que os deste tipo estão quase extintos.
Somente com as orelhas de fora
tem horas de calar como ovelha
pois sua tristeza consigo mora
sob a atmosfera da mesma telha;
mas quando com as olheiras por cima
dessa relva que tanto o consome
ele ri muito e brinca sua rima
usando sobretudo seu nome.
O coelho ser velho quer bastante
e em seu buraco aguarda na ânsia
de ter pelos brancos. Entrementes
vive, sem saber, uma nova infância
pois, quando um outro raro animal
o anima para chegar ao alto
logo ele percebe: não há mal
em viver de sol, sorriso e salto.
.
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4. A cama maior do que a semana
.
Naquele dia fumaçou muito e todos estavam pinball por ai. Os travesseiros deitados discutiam os prospectos da noite. No calado sombrio do zoológico, a dança animalesca se reproduzia pela festa da superfície, os encontros ocorrendo entre todas espécies. Apesar disso, havia ainda um pequeno espaço para aquelas vírgulas nativas da consciência, as quais sempre agulham nossas nucas quando menos esperamos. Assim, ocorreu um evento singular em torno da uma grande, imensa cama.
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Os nossos três personagens habitavam, naquele momento, planos diferentes da realidade. Enquanto a imersão do coelho o prevenia de ver além do seu bigode, a lagartixa franzia o cenho por degustar a verdade. Já o polvo corria, fugitivo entre as algas, solto solto solto, quando eles se juntaram.
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A cama era maior do que a semana inteira, quanto mais do que aquela noite. Mas sabemos o quanto camas são complicadas: cobertores, lençóis, fronhas, quiçá mosquiteiros, todos pululando em suas próprias frescuras, fazendo qualquer alma que ali se deite um ser complicado, mesmo que solitário. É difícil, portanto, achar solução em uma cama. Apenas coisas ferventes as quais não nos pertencem, mas sim nos dominam.
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No caso da nossa história, o que importa é que isso foi vencido. Como tudo se deu, cabe apenas à questão probabilística. A beleza dos encontros é numérica. Já a primazia de vencer a natureza das coisas não, é algo muito mais difícil de se atingir, de se imaginar. E aqui cabe o prêmio aos nossos raros animais.
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O leito imenso recusaria qualquer mistura das muitas que poderiam acontecer. A cama tinha reservas tão extensas quanto seu próprio tamanho. Mas se agradou primeiro com a natureza sólida e acolhedora de um, logo após com a doçura e sinceridade de outro. E finalmente com a avidez curiosa do terceiro.
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Sem querer, sem precisar, cada um ocupou seu espaço: tentáculos, orelhas, ventosas se repaginando em gestos, agrados e confiança. O vácuo de um era pequeno diante da compreensão do outro, os medos se diluiam perante um sentimento puro e inextinguível. Os olhos se fecharam e o escuro se fez tranquilo, os sonhos brilhando com a calma daquele trio impossível. Apesar de serem muito, muito distantes um do outro, de serem bestas distintas, cada uma em seu próprio reino feral, não houve espaço para as diferenças. O corpo, a história, a natureza – tudo foi vencido: na cama inteira só havia coração.
.
Quando acordaram, viram que já era tarde. Os três ainda eram pequenos, crianças com sono. Mas, apesar de extremamente humanos, eles haviam crescido muito, ainda além das dimensões da cama. Cada um se espreguiçou, levantou, escovou os dentes, abraçou os outros com força; cada um abriu a porta, olhou o sol com amor e foi escrever seu próprio final.
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