dois comprimidos ao dia


Primeiro (III)
09.05.10, 6:33 pm
Filed under: Abarathrasram

A tarde não sabe bem para onde ir, apesar do meio-dia já ter ficado muito para trás. O relógio grande na parede rola seu insignificante motor, contando passos de maneira simétrica e irritante. O homem no meio da sala sentado diante da mesa desarrumada sou eu. E eu estou em queda livre.

A manhã havia sido sem graça: acordei, passei pelo amargo ritual do despertar e me despedi sem muita convicção do meu leito e residência. Eu andava muito magro esses dias, sempre usando roupas em tons escuros, o cabelo desgrenhado. Uma figura monótona e destoante. Segui com sono até a parada de ônibus.

Passei a andar de ônibus de uns meses para cá, uma das muitas mudanças que sugerira a mim mesmo. Achava que, assim, obrigatoriamente saberia algum tipo de companhia, mesmo nos dias mais herméticos. A multidão, de fato, preenchia com um úmido prazer o espaço ao meu redor, mas nunca demonstraria o benefício que eu prevera.

O ônibus não estava excessivamente cheio quando finalmente embarquei. Sempre que possível, gosto de sentar no assento rente à janela, e assim o fiz. Por todo o percurso vou sentindo a máquina vibrando contra minhas têmporas, o rosto colado ao vidro sujo, tremendo minha visão enquanto observo desatento tudo que passa. Às vezes assobio coisas sem sentido, tão baixo que mesmo alguém sentado ao meu lado não ouviria, meus lábios finos sempre secos e sem cor se crispando num caramujo. Meus olhos marrons fechados.

Até chegar ao trabalho, acho que nunca me sinto acordado de fato. Todo o processo de se arrumar e me locomover até onde devo estar se dá de maneira medular, automática. Nada de proveitoso se tira desse momento – de fato me sinto um tanto inútil, apenas uma rocha ladeira abaixo, sem qualquer razão. Ou será que o trabalho só me distrai ao ponto de não ser esse sentimento o da minha vida inteira?

Logo quando cheguei na floricultura notei que tudo estava como sempre. Nada fora do lugar. É uma loja pequena, sobre a qual eu pouco sei. Marta havia cuidado dela como se fosse seu próprio jardim, já eu apenas fingira que escutava suas conversas e suas preocupações quando ela se punha a falar sobre isso.  Pouco havia me importando, então. Não sei nada sobre flores nem sobre floricultura, apenas sei, mesmo que pouco, de negócios. Mas aqui estava novamente, pontual, genérico, vindo realizar um propósito que nada tem a ver com o meio no qual me insiro.

Minhas razões provavelmente não existem. Posso até tentar chegar a uma frase para me apegar como se ela realmente explicasse algo, assim como fiz para o fato de apenas andar de ônibus e de distribuir flores na rua como um homem maluco. Mas eu sei que na verdade nunca acharei uma explicação de verdade. Tudo isso é apenas realmente um sopro da minha confusão, um escape da febre a qual pertenço e que precisa dessas coisas para não me queimar completamente.

Mas já ao sentar pela primeira vez na minha mesa, olhando para a foto de Marta em um porta-retrato vermelho, sabia que seria um dia de retorno. Retorno a tudo que tento abdicar, a tudo que tento fazer distante de mim como aviões que despejam suas bombas naqueles que nada sabem. Não era assim, no começo. Eu sabia o que estava sentindo, sabia que era tristeza e entendia o seu motivo, conhecia a saudade. Agora, não é nada parecido com isso, me sinto como se às vezes me desequilibrasse e mergulhasse num pântano desconhecido, afogado em coisas que não entendo – sei apenas que não as quero.

O primeiro sinal é a vista turva. Não consigo focar direito em nada e apenas respondo o que sei que calará o outro de imediato, sinto muito medo, meu rosto feito em cera, meus gestos previsíveis e senis. Partindo disso o isolamento, aos poucos, se dá – logo estou a mercê de meus próprios predadores: parece uma neblina, uma neblina quente e erosiva: minha cabeça pesada, a dor de querer se mexer e não conseguir, apenas finjo, opero truques para parecer que trabalho e que estou ocupado, inacessível. Com o olhar turvo e a mente em brasa sigo sofrendo um tipo de sentimento que não tem descrição, apenas consequência.

Não sei do que se trata. Realmente não. No breve horário do almoço permaneci sozinho na loja e o ar era pesado, as paredes se curvando para dentro como se entendessem que eu me sentia soterrado, sobrepujado por forças exteriores à minha compreensão. Foi necessário, não gosto de tomar, mas terminei por pôr embaixo da língua um calmante, pedindo para que tudo passasse, chorando baixo por achar que nunca conseguiria escapar.

O remédio surtiu seu efeito e o resto da tarde se arrastou fantasmagoricamente pelos corredores escuros das minhas divagações.

E agora continuo aqui, meio inerte, melhor, mas ainda absorto, sentindo o ridículo de ser uma criança, o ridículo de não ter controle, de achar que tudo isso é apenas uma desculpa para que eu desista de tudo e opte pelo caminho mais fácil. Os papéis na minha frente continuam inalterados, não consegui lidar com nada ainda, apenas olhei alguns sem interesse, usando outros como escudo, escondendo meu rosto quando algum dos funcionários entrava na sala para procurar alguma coisa. Sinto muita culpa. E não sou nada, não sou parte de nada, não sou ninguém, apenas uma máscara que se sente viva e insiste em viver atos e mais atos que na verdade nunca foram escritos para serem levados a sério, errando sua fala e suas emoções no velho teatro que –

– Boa tarde, eu gostaria de encomendar uns arranjos.

Levantei a vista ao ouvir a voz feminina e a realidade voltou como se um ralo secasse todo a espessa dúvida que me rodeava.

Anúncios

3 Comentários so far
Deixe um comentário

que horrível rodrigo.

Comentário por julia

tb achei, sabia? que nóia.

Comentário por rodrigo.

só malucos de coração veriam a beleza do que representa vender flores, a vida é uma loucura e ninguém tem controle sobre si mesmo, somos todos perdidos malucos nesse mundo rotativo, digaí, nós nunca estamos parados de fato, como pode?
Ah, e tira a foto de marta de cima da mesa!

Comentário por Gabi




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: