dois comprimidos ao dia


Primeiro (II)
21.03.10, 2:21 pm
Filed under: Abarathrasram

É, sabe como é. Difícil você superar uma coisa dessas. E até superando, isso só quer dizer que tudo se tornou parte de você. Mas mesmo assim, tentar mudar a importância disso na sua vida é simplesmente irrealizável. Ficou tanta promessa ainda, tanto ar de onde será que vamos, sabe? E mesmo a gente não tendo filhos, a gente falava muito disso. Era um tema meio que por trás das cortinas. Mas acho que dava muita graça pra gente, dava um momento de mistério, de coisa intocável, algo assim. Muitas partes do que a gente viveu foram assim. Ficar junto, no geral, sempre foi algo complicado e no começo, as vezes que a gente estava separado, ela soube deixar essa coisa acesa. A gente conseguiu. Às vezes não ligávamos para o outro, ou deixávamos de cumprir alguma coisa que devíamos, e só de vez em quando dávamos um abraço apertado, dávamos carinho. Somente para logo depois ambos sumirem, passávamos um tempo vivendo outras histórias que se acha por ai. E isso ia e vinha. Era o nosso jeito de nos comunicarmos, na verdade.

Mesmo no nosso casamento a gente dava ainda um pouco de insegurança um pro outro, acho que nenhum dos dois conseguia ser sempre um porto seguro. Precisava haver falha. Quando nós entendemos isso, cada um à sua maneira, realmente tudo passou a ser menos inteligível, mas muito mais estável.

Enfim, não dá para esquecer tudo quando você sabia o cheiro daquela pessoa quando ela estava com febre, quando você sabia no tom da voz um choro que só viria dias mais tardes. Mas mesmo assim eu ainda não sei como perdoá-la, não sei como deixá-la em paz. O caminho da gente foi tão junto que agora não sei qual o meu, não sei se as setas que guiam os carros são para mim ou para ela. Muito estranho isso né, a gente se confundir com outro no espelho? E claro que indo embora ela simplesmente faz do nosso jogo uma função perpétua atuando sem critério. Agora tudo é apenas o momento antes do próximo ato…

Se eu tenho vontade de morrer? Olha, acho que todo mundo tem um pouco de vontade de morrer. Todo mundo faz uma coisa que sabidamente é apenas um eufemismo para a morte. Quando se fuma, quando se bebe, e por ai vai. Mesmo quem foge disso tudo sabe que a fuga, também, é apenas um recado, mesmo que em outra língua, para a morte.  Mas eu não estou mais querendo me matar, se é isso que você quer saber, nesse sentido acho que não tenho mais vontade de morrer, não. Sabe, a morte não seria nunca algo para ir para perto dela, não acredito em nada disso, a morte seria uma punhalada em mim, mas também nela eu acho, acho que um pouco disso, sim. E por mais que esse lado dela esteja aqui, sempre me lembrando de um ódio, sempre me lembrando de porque eu me detesto tanto às vezes, eu não consigo mais agredí-lo, não consigo mais partir esse espelho.

Não sei exatamente porque, mas o negócio das flores com certeza ajudou, aquilo me faz sentir bem, é algo muito estranho para mim, para qualquer um, realmente, mas me faz sair um pouco do cimento dessa condição.

E além de tudo me trouxe outra coisa boa: mudou os cheiros que eu sentia. O problema dos domingos em casa, agora faz praticamente um ano que ela se foi, não era nem a solidão. Às vezes eu, inclusive, tinha visitas, o pessoal ia lá me fazer companhia. Não era a solidão o problema. Por um tempo, até, pensei que tudo vinha da ideia mesmo de residência, no começo eu achava que o veneno se encontrava no tapete da sala, na colcha do quarto, pensava que era o conceito de lar que me cosumia aos domingos. Isso foi na pior época. Mas depois que eu me mudei, vi que não era essa perspectiva que me assombrava, tinha algo mais, mais primitivo ainda que a casa, mais ôrganico ainda que o sono e a espera. Logo quando cheguei no apartamento novo eu passei a notar que eram os cheiros que me atingiam, na verdade. Era toda a atmosfera, algo etéreo, mas especialmente o cheiro me mostrava o caminho da tristeza. É muito estranho isso acontecer? Bem, mas foi justamente assim comigo. Às vezes eu sonhava com ela também, e claro que acordava meio estranho, mas nem lembrava do sonho. Mas assim que sentia o cheiro do detergente, do xampú, do sabonete, do sofá, da fronha, dos copos… todos eles já conhecidos, já padronizados, isso sim me levava além, isso me mostrava que não sou nada diante dos sentimentos que carrego.

A verdade é que sentimos muito mais do que desejamos. E que somos conchas frágeis sob essas ondas muitas vezes sem explicação.

As flores me trouxeram vários outros aromas e passaram a me incentivar a sair de casa, especialmente aos domingos. Uma coisa pequena que mudou quase tudo. Não acredito que tenha resolvido, claro, mas está me fazendo bem, eu acho. Vamos ver onde é que isso vai dar. E já deu a hora, né. O resto, fica pra próxima consulta.

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1 Comentário so far
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Me lembrou uma música de Queen.

Mal posso esperar a próxima consulta, Mr. Psiquiatra.

Comentário por Marina




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