dois comprimidos ao dia


Celacanto
14.03.10, 3:19 pm
Filed under: Crônicas

Hoje acordei e lembrei de que existo. Sabe, os sentidos se esquecem às vezes de que têm trabalho a fazer. O coração, como o pensamento, é outro bicho preguiçoso, além de inevitavelmente estrangeiro. Todos imunes às nossas imposições.

Os sonhos são sempre companheiros nesses primeiros momentos da manhã, a cortina ainda é distante demais e o sol nem se fala. São os sonhos que nos recebem cá por terra, depois daquela vida toda que nós passamos nadando nos mares oníricos do nosso inexistir. É cada nuvem que eu reconheço agora, nesse pueril transe matinal, cada forma louca tirada de uma garrafa repleta de algodão. As coisas mais inexplicáveis e sem sentido encaixam perfeitamente na razão por ao menos um segundo, como se tudo tivesse motivo e seguisse uma lógica. E reconheço que, por essas e por outras, a ficção é algo perfeitamente retilíneo e explicável. A realidade, não.

Pontualmente, após a desfragmentação do meu delírio, vejo-me sentado na cama, com os pés no chão. No geral não lembro de nada do que sonhei. Apenas recebo os sentimentos do que passou, sentimentos que não saem do poço de sua origem, mas que nem por isso deixam de nos alimentar. Como uma árvore eu continuo sentado, imaginando o que seria aquilo que nutre minhas raízes. Eu e meus galhos sonolentos.

E sinto que estou vivo, muitas vezes, nesse exato momento. É como se minha mão segurasse na pedra que me ajudaria a sair de um abismo. Vivo, sabe? Os olhos crescem em suas órbitas e a névoa é mais rala e mais tranquila; os ouvidos se expõem de dentro de seu complicado caracol e os sons são letras e desenhos perfeitamente compreensíveis; a língua, o nariz, a pele, tudo é melhor e mais limpo: há sentido, há resposta para o quebra-cabeça.

Contudo, logo vêm os primeiros passos, os primeiros desejos, os primeiros erros. Ou seja: o dia em si. O cisma finalmente ocorre entre as percepções, entre o objeto de fato e seu reflexo no espelho.  Entretanto, não podemos, precisamente, julgar qual dos dois é que somos. Mesmo assim, seguimos a fila, vez ou outra errando de lugar, mas sempre tentando seguir a fila: banho, café, elevador, trânsito, relógio. Construindo um caminho muitas vezes sem sequer entender. Afinal, a verdade, a realidade, caso tentemos entendê-las, não nos farão muito sentido. As repostas, agora, são frutos difíceis. Medramos nesse solo apenas por saber que todos estamos limitados a essa mesma condição.

Hoje acordei e lembrei de que existo. Só não sei se existo fora de mim como existo em mim mesmo, se existo para a luz como existo para a noite, se existo para a terra como existo para a água. É assim que se apresenta o dia, desde de tempos imemoriais; assim que se dá o nascimento do sol, o nascimento que é nosso, também, e de nossos filhos: os olhos se abrem e as ondas nos jogam na areia de novo. E de novo. E de novo.

Eternamente terrenos, sem saber porque.

Anúncios

1 Comentário so far
Deixe um comentário

Sempre fico intrigada com o título que você coloca nos textos. Parece que sem ele o texto ficaria incompleto, ao mesmo tempo em que não faria falta se nunca tivesse estado ali. A partir do momento em que está, torna-se necessário.

Não achei o texto tão maluco assim. Geralmente me enrolo mais nos poemas.

Comentário por Marina




Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s



%d blogueiros gostam disto: