dois comprimidos ao dia


Primeiro (I)
10.03.10, 12:17 pm
Filed under: Abarathrasram

Desde que Marta morreu ele havia se afastado do trabalho. Claro, era um momento extremamente difícil, eles não haviam tido filhos, sua casa e sua vida estavam inteiramente vazias. Conseguira uma linceça médica por enquanto, mas sua vontade era de nunca mais voltar a trabalhar, nunca mais voltar a querer fazer alguma coisa. Seus dias pareciam de chumbo.

Aquelas primeiras apáticas semanas se arrastaram com pachorra, sem muitos acontecimentos, tirando a visita ocasional de um familiar, pesadas e sem sentido. No geral ele passava os dias trancado em casa, ora dormente, ora completamente entregue a um caos de sentimentos.

Seus pais demoraram uma semana, mas vieram visitar. Olharam-no com bastante circunspecção, quiseram jantar, foram na praia. Partiram após dois dias ou três. Apesar deles sentia-se tão órfão quanto viúvo naquele momento. E logo retornou ao seu torpor.

Assim, as horas se perpetuaram cansadas e imóveis, até o dia em que ele não via mais pelo que esperar, não sabia exatamente o que estava fazendo ali sentado no sofá da sala mais uma vez com a televisão desligada, com os quadros todos fora de lugar e os móveis polvilhados de poeira. Com aquela tristeza oca e insustentável que não o deixava se mover, não o deixava querer.

Sua tentativa de suicídio não foi muito bem sucedida, pois nem nesse ato conseguiu depositar vontade ou esperança. Mas rendeu-lhe um período indeterminado de afastamento, além de algum tempo no hospital.

Logo após, começou a tomar remédios e a fazer terapia. A família, bem verdade, cogitou-lhe com certa discrição umas visitas mais prolongadas, quem sabe até estadias, em alguma clínica ou retiro. No entanto, notava-se que ele buscava entusiasmo para começar novas atividades, para mudar um pouco os humores. Decidiu que se afastaria de vez do emprego na empresa e passaria a tomar conta da floricultura que pertencera a sua esposa. Mudou-se para um apartamento menor, mas mais iluminado e bem ventilado. Algum otimismo finalmente surgiu nas conversas de mesa de jantar.

Entretanto, foi somente depois de mais quatro sofríveis meses, repletos de consultas constrangedoras, noites desesperadas e de uma sensação imensa de incompletude, que ele finalmente descobriu como despir sua mente daquela pesada mortalha. Após se debater em tentativas vãs de praticar esportes, entorpecer-se, ler filosofia, inebriar-se de trabalho, encontrar velhos amigos, e até frequentar igrejas, finalmente ele havia encontrado um pouco de paz em fazer algo.

Apenas sua atormentada mente sabia como havia chegado a adquirir o hábito, estranho e nostálgico. Mas logo já era de conhecimento de todos: sempre aos domingos ele carregava sua cesta de flores para distribuir na rua.

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Sempre a terapia. Mas só o tempo ameniza certas dores.

Comentário por Marina




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