dois comprimidos ao dia


Nossas quimeras
02.02.10, 1:19 am
Filed under: Eros

– E aquela vez, lembra? Prometi que a gente veria as flores novas no parque, prometi que a tarde contaria todos os seus segredos, que os portões seriam sempre os de chegada e que os matizes nunca mais nos faltariam quando quiséssemos descrever uma coisa bela, mas teus olhos não souberam confirmar as cores que eu oferecia; ainda havia tempo naquela época, ainda havia um perigo para se descobrir, não tinha chegado o inverno completo ainda, com seus lençóis penosos e inesquecíveis… aquelas flores não são mais novas, suas pétalas já se fragmentaram e hoje comungam do mesmo solo pedregoso das raízes sombrias, mas mesmo sem as ter visto, sem lhes ter sentido o perfume, sem as ter encontrado entre meus dedos e teus cabelos, lembro de toda a sensação, cada farelo perolado que espalharíamos sobre as pálpebras quando sem controle nem pudor pudéssemos exorcizar até as menores cavernas inseguras do nosso êxtase, quando sem se importar com o poente nos atacássemos com o úmido confete primaveril o qual produziríamos, sorrindo como bêbados num quadro em chamas…


– E você, lembra? Quando na televisão disseram que um cometa iria passar, todos nós nos azafamamos, afinal o veríamos, saberíamos sua beleza e dificuldade etérea, e tudo pelo visto faria sentido, todos os olhos com o seu místico reflexo enxergariam para sempre; esse era o nosso cometa, a gente dizia, e naquela noite, naquela noite translúcida de verão, eu botaria pela primeira vez o vestido que você me deu, correria com aquele vermelho frouxo escorrendo pelo corpo, partindo morro acima e me jogando na relva para esperar a passagem anunciada do astro, do fenômeno arauto das pequenas certezas humanas que são tão distantes que todos nós, por alguns segundos, achamos que deve ser mentira… mas sua mão diurna se fez fria diante do possível cosmo do meu estilo, por trás dos seus óculos entendi não haver brilho correspondente ao do firmamento, mas mesmo assim me calo às vezes no escuro, prendendo a respiração antes de dormir e sinto aquele vestido, o rubro a me alisar o corpo, aquela explosão celeste nos apontando o branco do riso durante o festival irredutível da noite, fazendo meus castelos de imaginação, assim como você os faz, assim como todos nós os fazemos, como se tivéssemos verdadeiramente amado por ao menos um dia sequer.

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2 Comentários so far
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Escritas de outro jeito, seriam apenas lembranças. Mas, assim, é uma linda declaração. Muito linda.
Fiz uma coisa parecida, no ano passado, mas foi pro meu irmão. rs

Comentário por Marina

Só tinha visto “azafamar” em um texto em toda minha vidinha… e faz tempo! Adorei! ^^ E o contexto?!

Comentário por Mari Matos




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