dois comprimidos ao dia


Yer blues
30.01.10, 7:40 pm
Filed under: Samsara

Horas estáticas ao volante do meu carro, o som gritando músicas as quais nunca me importei em ouvir. A chuva batia sólida contra o vidro e o som se misturava em meus ouvidos, rios que se encontram sem querer.

Tanta coisa havia se passado em tão pouco tempo, tantas histórias destruídas por mera atenção do acaso, vínculos estourados como bolhas de plástico: todo fim é apenas uma etapa, tão sádica quanto lúdica. E depois apenas árida.

As estrofes repetidas da canção me embrulhavam em nuvens, minha visão turva, dupla, confusa. Tanta água, nenhum céu, o som rígido daquele tambor, meus medos aflorando como sujeira vinda do ralo. Os erros que se repetem em minha mente.

Cada prédio me encarava severo e eu não sabia mais o que fazer, as ruas se esticavam mais do que meu tanque de gasolina, mais do que meus músculos possivelmente conseguiriam guiar aquele veículo. Carros, carros e chuva, meu caminho entre as esquinas e as interrogações de cada luz verde.

A culpa, acho que era ela, a culpa. Ela me perseguia desvairadamente. Eu não sabia, então. Apenas fugia como se o pedal me anestesiasse, como se a velocidade me transformasse em algo mais suportável de ver no espelho. A culpa, creio, por ser o que sou, por ser isso que somos, bichos esquisitos que se amontoam em caixas de concreto e se trancam para chorar no banheiro. Bichos que agem como bichos, salvo pelo fato de fingirem saber exatamente o que fazem. E por sentirem o imenso deserto que é ter escolhas a fazer e a sofrer.

Por horas eu apenas existi, ali. Um móvel num quarto qualquer. O vidro me escondendo da chuva, que por sua vez me escondia do mundo. A música, aquela música era minha alma, era todo meu plectro e compreensão. A voz, na verdade era a minha, eu podia gritar e fazer com que o mundo entendesse aquilo que nem mesmo eu entenderia.

A chuva piorara e aos poucos fui me deixando apagar, ao longo de vários minutos me deixei lentamente misturar cada vez mais com o ambiente. Virei outro apetrecho mecânico, outro solo de guitarra, outra gota de chuva. A gota que como nós não escolhe cair, mas tampouco existe se não o fizer. Eu sou essa gota. Assim como você. E mais ainda do que a gota, a queda. Sobretudo a queda, é o que somos.

Sem pensar duas vezes parei o carro no meio da rua, desci e, olhando para o céu molhado e sem resposta, senti uma vontade irresistível de rir.

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1 Comentário so far
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mágico…
perfeito!

Comentário por lou




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