dois comprimidos ao dia


Abarathrasram: convite
07.01.10, 3:09 pm
Filed under: Abarathrasram

Da tarde o fim me alcança o dentro. O sol, o sol logo logo vai embora e somente a areia branca fica, nada a mais no parque desprotegido. Se nas asas não houvesse a queda, se no grito não houvesse o rouco, se no muito não houvesse o câncer… Nos passantes não há centro, não há atenção no caminho. E o caminho merece atenção, merece-a como o escuro merece o claro. Como saberemos, assim, se  é possível o próprio perdão? Busco me recordar da Palavra, ela me foi ensinada para mostrar além desse jogo de luz e sombra, a Palavra que culmina em todos os sentidos por não ter sentido algum. Ela é leve e desarraigada, sublime, como as folhas caindo. E folhas são mais livres do que as aves jamais serão.

Folhas voam sós, não se apegam a nada exceto o vento, que por definição não é apego. As aves são de algum lugar, dos lábios do lago, da sua garganta, do seu bioma completo. As aves sabem qualquer coisa, elas nunca perdem a direção. Seus olhos, aquelas moedas de vidro, como não se decompor diante daqueles olhos prisioneiros? As folhas, enfim, as folhas são aquilo que não tenho em mim: pertencem-me as penas escamosas do dragão. E é a senha para me retirar dessa armadura em chamas que me foi prometida.

Ando tão lentamente pelas ruas desconhecidas que parece que estou atuando para uma plateia vazia. Meus pensamentos não passam de um preguiçoso solilóquio, ensaiado tão-somente entre meus ouvidos. É PRECISO, busco lembrar o que meu foi dito pela manhã, É PRECISO BUSCAR O MANTRA, NA HORA, É ISSO QUE SE FAZ PRECISO. SENTIR A PAZ, A QUIETUDE. VOLTAR AO MANTRA. É A ORDEM. Essas palavras me atingem a cada piscar de olhos, estão contidas em cada fóton, cada fragmento elementar com o qual os astros desdenham das nossas pirâmides indecifráveis.

A mais longa das ruas até então trouxe consigo a vera noite, a dama eterna com a qual todos nossos instintos se desentendem. O problema da escuridão é que ela deforma, nada é o mesmo. Meus olhos mentem para si mesmos, os tons se desmancham e se reestruturam sem dar chance à razão. E num momento a engrenagem é feita como um feitiço, as pernas se esticando fracas, a mente encurralando as tentativas, a calçada se encurtando, postes se curvam agressivos, a grade e a passagem, o céu feito teto, risos opacos, escadas luz chave porta luz roupa grito cama. Nu.

Grito.

E a colcha agora, depois de tudo a colcha, o apego do tecido, o gordo do recheio, o calmante sob a língua, mas a mente não se desapega, não se desveste de suas jóias, dentes de ouro num cadáver já velho demais. As cordas do meu coração se contorcem, as palavras empilhadas no meu pescoço perdem a cada segundo seu valor, seu metal, sua brasa. É PRECISO, eu penso entre o turbilhão de lâminas de barbear, É PRECISO CALMA, BUSCAR O MANTRA, É PRECISO CALMA – QUIETUDE, PAZ, É PRECISO. E respiro como uma lesma que se afoga na chuva matinal, maldita esponja precária. E sei que sou matéria, sei que me componho, que sou provindo, que tudo teve origem, sei de um peso estratosférico que teima em persistir em minhas unhas,minhas células, minhas respostas,  minhas investidas. Será que o conforto nunca casará em meu travesseiro; será que um dia o chicote se desculpa do animal?

É tarde já, tarde demais, e sinto o peso, sinto a distância ridícula entre meus pulmões: meu vácuo sem legenda – mas tento parar o pensamento por um segundo, primeiro, por pequenas frações, como que dispondo inúmeros obstáculos em fileiras milimetricamente próximas, e quiçá percebo um diminuir, um resto de vontade que aos poucos transparece através da lupa desenfreada da ansiedade. Dois segundos, aos poucos ganho terreno, aos poucos cravo meus instrumentos na inexorável montanha da calma, penhascos calados sob a neve acalentadora; e assim vou até quase completar pela primeira vez a Palavra – É PRECISO, novamente penso, VOLTAR AO MANTRA. SENTE A PAZ? QUIETUDE? É PRECISO VOLTAR. Mas as letras se embaralham, letras que não deveriam existir,  aquele som não era pra ser uma representação de fato, não era para residir naquela ordem de fonemas um sentido, o desígnio de um termo.

Mas ele vem, enfim, enorme, atemporal, completo por entre cada ideia falha —

e de imediato choro. É noite e choro calado para não acordar meus medos. Não tenho explicações, apenas repito mecanicamente a Palavra e choro: inominável entre os lençóis escuto o ruído em meu peito que não se cala nunca, não se cala e não encobre seus caninos, e cada soluço meu é como um uivo, e a Palavra em mim é o dilúvio e os sons todos são minha casa que em sua porta indica aquilo pelo qual a própria Morte um dia desejou ser chamada e seu nome é:

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1 Comentário so far
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Interessante a comparação da liberdade das aves com a das folhas. Sempre achei que as aves fossem os seres mais livres. Mas ainda fico pensando: liberdade não é ir aonde se quer? Que querer tem algo que é manipulado para ir aonde vai o vento?

Comentário por Marina




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