dois comprimidos ao dia


Bildungsroman?
31.12.09, 5:24 pm
Filed under: Samsara

Ele estica suas pernas para receber um pouco mais de luz. Ao redor, a pequena faixa de areia populada pelos membros mais variados da sociedade. Cada qual no seu lugar: o verde está no mar, o azul está no céu.

Ao se levantar, faz questão de parar um segundo e se espreguiçar, tentando encostar no sol com a ponta dos dedos. A gruta da boca exala o cheiro de cerveja e produz pequenos e estranhos sons, como bichos numa caixa abafada.

Entre as crianças brincando de vivas, ele atravessa em porte titânico, com passos de Gulliver, Adamastor, Golias…

A estepe líquida o alcança, o sangue salobro lhe beija os pés, a arcada dos arrecifes parece pronta para o agradar com um beijo. Sem mencionar muito cuidado, ele avança; enfrentando o peso crescente da atmosfera ele afunda; com o coração vazio de medo e ornamentado de vontade e inocência ele adentra. Até que a água ja arranca seus pés do chão seguro.

As primeiras braçadas são dadas com ar de tranquilidade e convicção. O horizonte lhe acena com um convite, a mente prestativamente projeta objetivos na linha divisória de céu e mar. Na diversão de suas realizações improváveis, ele se afasta, exibindo em seu dorso a coragem de homem. Não precisa quem o guie, não precisa de afagos ou reclamações aqui fora. Ele sabe para onde vai.

O mar se confunde com o seu próprio destino.

Na tranquilidade de seu passeio, submerge um pouco, brinca de prender o ar, sente que sabe o que está fazendo. Está seguro. Mas quando volta a superfície, o mar mudou, ele olha ao redor e não enxerga a praia.

E logo vem a primeira onda.

Repentina, sub-reptícia, magistral como o juízo divino: sua violência transpassa os frágeis ossos de sua fronte, deflagrando torvelinhos em sua mente. A confusão, o vórtice se estabelece, mas de imediato – a segunda. E a terceira. E a quarta.

O desenrolar maldoso das massas aquáticas desdenha de toda sua proeza anterior. Agora sua existência se resume a um fio inusitado num cabo-de-guerra sem controle, nenhuma esperança sua é maior que um passarinho engaiolado.

Sem tempo para respirar ele se debate, seu peito boca nariz olhos ouvidos ardem. Está imerso em dúvida, privado de oportunidade, com o sal penetrando na maciez de seu corpo despreparado. Chega a quinta. Sua alma se amassa, ele quer gritar mas nao há como. Existe uma mão imensa sobre sua boca, um obstáculo dantesco sobre seus sentidos, uma correnteza lancinante contra suas vontade – a sexta onda vem como um recado recebido tarde demais.

Consecutivas. Fiéis. Com hora marcada. Todas se depositam violentamene, em perguntas,  sobre seu corpo frágil.  A sétima traz o peso imenso da velhice, mas ele não faz mais diferença: seu próprio peso não se discerne.

No viscoso reino abaixo da superfície, o mar, então, denota alguma calma.

Com o último empréstimo de suas forças, teso como um peixe no anzol, ele finalmente consegue coordenar seus medos e se propele para onde julga repousar um resquício de salvação. Com os olhos fechados, os pulmões repletos de lágrima, ele se contorce até não sentir mais nada. Apenas que segue, mesmo sem saber para onde.

E no primeiro instante de paz que sente, abre os olhos como um recém-nascido. Tosse, expelindo todas as conclusões apressadas que tomara desde que resolveu adentrar a água, rejeitando todo o veneno marítimo que engolira. Deseja, agora, uma mão que lhe acalente, um farol que lhe demonstre como se assegurar. Alguém que lhe confirme quem ele é. Mas só tem mais sol e sal.

Atordoado, amorfo naquela piscina amarga e sem fim, traga um gole de ar, tímido e vulnerável. Mas sabe: não adianta.

Já é segunda-feira de novo.

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