dois comprimidos ao dia


Suicídio: uma visão contemporânea
28.12.09, 1:20 pm
Filed under: Matérias

Pecado, covardia, tabu, loucura, crime: raros são os atos que carregam consigo tantas definições negativas.

Apesar da sua concepção médica moderna, a qual o transformou em pouco mais de outra doença estatisticamente enumerada, o juízo de valor em relação ao suicídio parece ser, de fato, inescapável.

De uma maneira geral, na história de nossa sociedade, verifica-se um onipresente preconceito contra o suicídio e, sobretudo, contra o suicida: punições para aqueles que sobreviveram a uma tentativa de tirar a própria vida existem desde a antiguidade. Mas podemos afirmar  que somente após o advento da cristandade é que a coisa começou a ficar mais séria.

Entretanto, para os primeiros cristãos, o suicídio não era ainda algo a ser evitado. É notável o grupo donatista, o qual via no sacrifício altruísta de Jesus Cristo um indício de que morrer por sua própria escolha era o fim mais nobre e santo possível.

O argumento contra a prática só surgiu com Santo Agostinho, o qual se abismou com a quantidade de suicídios praticados diariamente pelo grupo. Ele buscou seus motivos teológicos em Platão, e não na bíblia, a qual não faz muita menção do assunto, mas terminou por fornecer razões suficientes para conceder ao suicídio o título de pecado e o estigma de tabu.

Somente no século 19, com o lançamento do clássico Le suicide de Émile Durkheim, uma análise científica foi dedicada ao tema. Nela, o grande sociólogo francês usou largamente da avaliação quantitativa, finalmente pondo uma luz racional sobre o tópico, encarando-o como um fato social.

Só então a medicina moderna passou a estudar o suicídio, através das ciências da saúde mental. Buscou-se, sobretudo, uma etiologia precisa para seu acontecimento. Freud discorreu sobre o tema, chamando-o de “agressão ao objeto introjetado”. Outros buscaram explicações sociais, cognitivas, comportamentais e genéticas. Há pesquisas que indiciam, inclusive, terem descoberto um gene onde a presença de um único alelo seria o fator determinante para se uma pessoa poderia ou não tirar a própria vida.

Assim, temos inevitavelmente vinculada ao suicídio a imagem de pecado, doença, problema. Problema que, como definiu Albert Camus, talvez seja verdadeiramente o único da existência humana.

As palavras de Sêneca, o velho, contudo, trazem outra perspectiva: “O filósofo pode escolher a maneira de sua própria morte como se escolhe uma casa ou navio. Ele deixa a vida como se deixa um banquete – quando for a hora”. Sim, o suicídio já foi um fato aceito, defendido e até almejado em certas civilizações. A morte partia de uma decisão calma e obstinada, não necessariamente associada a uma doença ou adversidade, na melhor acepção de estoicismo. Nesse caso, será que se aplicaria  ainda a definição de problema?

Isso sem falar nas sociedades onde existe o suicídio ritual, como o seppuku dos samurais e o jejuvy dos guaranis-kaiowás, cuja realização é considerada sinônimo de bravura e hombridade.

Há muito mais perspectivas para serem abordadas sobre a o ato de causar a própria morte do que é possível expor em um texto. O prisma da vida não se limita a uma definição ou duas. O suicídio pode ser encarado de diversas maneiras, a depender da moral vigente, de quem o pratica e de em que situação ele ocorre. Mas reduzi-lo a um simples problema médico ou social, julgá-lo como um tabu a ser enterrado junto com outras vergonhas nunca vai nos trazer um entendimento completo. Muito menos uma solução.

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2 Comentários so far
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Deixando de lado todos os (pré)conceitos religiosos e afins, tenho a seguinte opinião: todo ser vivo tem a sobrevivência como principal lei da vida. Não é covardia; o medo de morrer é natural, fisiológico, e aquele que perde esse sentimento, ou o supera por algum motivo, tem um desvio psicológico. Sem condenar quem quer que o faça, querer morrer e efetivamente procurar um meio para tal é querer se esconder de um problema. Atrevo-me a considerar uma covardia, até mesmo para com as pessoas que ficam aqui, sofrendo.

Não me mate, OK? Haha!

Comentário por Marina

“Sim, o suicídio já foi um fato aceito, defendido e até almejado em certas civilizações. A morte partia de uma decisão calma e obstinada, não necessariamente associada a uma doença ou adversidade, na melhor acepção de estoicismo.”

Nunca tinha ligado o suicídio ao estoicismo!!! O.O E pior, faz muito sentido!!!

Mas acho q o suicídio seria uma involução da sociedade. Os problemas, doenças, entre outros infindos e complexos motivos que levam alguém a cometer um suicídio são os mesmos que levam a sociedade em geral a ir além e evoluir.
Seria então uma seleção natural bizarra?!
Existe suicídio no mundo animal?

Adooooooro discutir tabús! =P
Bj Marques!!

Comentário por Mari Matos




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