dois comprimidos ao dia


Acatisia
20.12.09, 7:46 pm
Filed under: Samsara

Vejo boiar a inércia do meu ser no meu ser sem inércia, inútil mar.

Fernando Pessoa


Não sei por qual razão me deu de desligar o ar-condicionado. O calor dessa cidade é infernal e tudo se passa debaixo de um guarda-chuva iluminado e quente. Minha vida nos últimos meses nada tem sido, salvo uma aura de recados e conversas paralelas que me revelaram aspectos outrora nunca externados da minha loucura e insensatez: sou um campo minado de álcool, cigarro e cafeína.

Não obstante, desliguei-o e permaneço na minha leitura de um livro do qual já sei o final. Já sei o final por ser aquele mesmo que espera a todos: somos tão filhos de Adão que não conseguimos fugir da nossa própria consciência compartilhada. O báratro entre gerações nada é, nada vale, nossa espécie apenas se repete e se entedia perante um mundo que não é novo por não podermos perceber que ele é novo. Tampouco conseguimos dar a permissão para a sua novidade.

Canso. Junto as capas como pálpebras de algo defunto.

Num momento, ouço um grito estranho de metal: muitos andares abaixo, no solo, um caminhão de lixo surge como uma besta medieval, grande e incompreensível criatura do lodo. Seu corpo pausando ligeiramente de poucos em poucos segundos, pronto para digerir os resquícios de nossas carências. Ele rasteja na rua em frente ao meu apartamento, suas perninhas cedendo sob o peso, seu bojo ecoando uma peristalse tremenda. São esses sons guturais que adentram minha vida diariamente, são esses arrotos monstruosos que me garantem a presença do humano em minhas horas de solitárias desavenças. O lixo é o nosso produto e o nosso destino, como não o querer conosco?

Logo, o azáfama da avenida em minha mente rebate nos pequenos bois que refletem a calma do meu quarto. A cidade lá fora é minha cópia, enquanto o ambiente no qual existo enquadra um útero sem intenção. O mínimo cair de uma folha desencadeia relâmpagos de pensamentos indignados. Quantas horas a geometria escura desse cômodo me consumiu, derivando milhares de imagens caóticas das minhas retinas cansadas, dia após dia, susto após susto, sexo após sexo; veneno etéreo da residência.

A repetição das causas, das cervejas, dos outonos me constrange. Cada papel amassado é um dia atravessado, cada escritor frustrado é um mesmo caminho que todos nós sabemos diariamente. As cordilheiras de livros e fotos ao meu redor se igualam às lixeiras sendo devoradas lá embaixo: todas as coisas são produtos, restos que, porventura, alimentam. Nada foge… interpretações distantes na verdade são irmãs, cada olhar que produzimos se transfigura naquele que outrora percebemos, minha língua roça meus caninos como os lobos já faziam, meu tórax expulsa o carbono que já povoou corpos celestes.

Minha angústia é a mesma daquele que primeiro soube o fogo.

Levanto atarantado. Procuro querer sair mas tenho medo do que a fuga me permite. Tenho medo de que a fuga na verdade seja um encontro, seja uma concessão para uma maior ainda liberdade desse enxame que se aloca em meus giros e sulcos. Não obstante, esforço-me ao agarrar uma chave antiga e parto como se as escadas fossem me levar ao céu, mesmo sabendo que corro para baixo.

É efervescência o que sinto quando me jogo no copo de meus pensamentos mais sinceros. Efervescência vadia, esparramada, conquanto incrivelmente ansiosa – preciso de algum ar, sempre preciso de ar, sempre, sempre; minhas janelas, como um velho no leito de morte, parecem incapazes de transportar a vitalidade para dentro de si. Sou a fumaça que resta no pulmão do fumante.

Expremo-me com uma certa penitência pelos intestinos da caixa onde moro, saindo pela dianteira num parto apressado. Atravesso as ruas, vira-lata faminto, e me ponho a correr perante o mar.

A praia é uma enorme boca, com um hálito pesado, uma baba viscosa… Nela penso melhor, nela vejo o sol e dele recebo o amor que é saber que minhas certezas um dia irão ruir e tudo se fará como se faz a tarde e as estrelas que somem sem nos mandar sequer um cartão postal.

O avigrama do meu intelecto, ainda no processo de pousar após sua irriquieta migração, vagueia por essa linha amarela que é a orla. No seu vôo intranquilo, imagens e dejetos se misturam numa polpa humana, num fragmento maciço de todos os sentimentos burlescos aos quais já aderi e com os quais já me desinformei num tango de dois cegos.

Diria alguém que não me conhece para ter paciência.

Paciência, sobra de manhã inchada é a paciência. Não a tenho e apenas espero as coisas inesperadas, pois as outras eu trago numa única inspiração e baforejo o mais rápido possível. Vivo depressa e corro na minha pressa pois não sei bem ao certo onde quero ir ou como quero chegar e a velocidade com a qual convivo não passa de uma das pequeníssimas coisas que me compõe e que me definem melhor do que qualquer letra, palavra ou infração.

E como que numa súbita vidência, abro os olhos e escuto minha respiração.

Finalmente, após aquele último suspiro de angústia, consigo sustentar o mínimo fio-guia que rege qualquer humana existência. Dormente, alheio a minha própria inquietude, corro calado e com um sorriso atravessado, desviando das flores murchas que são meus espelhos sobre o caminho. Sei que, na verdade, apenas elaborei uma máscara. Apenas consegui atingir uma rara bolha de ar em meio ao inóspito vácuo diário. Apesar da desesperada e já redundante tentativa de cura, nada cessa como um todo.

E é inútil correr. Mas corro, e sinto meu ardor aumentar na medida em que me perco nessa eterna partida, envelhecendo com o chegar de cada onda: inúteis conclusões de um tolo e profundo mar.


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1 Comentário so far
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Insatisfação é uma palavra que explicaria bem o meu estado de espírito, ultimamente. Como uma busca por uma liberdade diferente, uma que não conheço, juntamente com o medo de perder a que já tenho. É difícil explicar, mesmo porque nem eu entendo realmente.

Excelente texto, Rodrigo.
Perdi o link do outro blog, por motivos técnicos. Depois você me passa de novo?

Beijos.

Comentário por Marina




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