dois comprimidos ao dia


De profundis
19.12.09, 2:40 pm
Filed under: Ensaios

-A solidão das feras-

As feras ilhadas miram os visitantes sem discrição – um picadeiro que calado observa a platéia. No jogo de soslaios, nenhuma mensagem ultrapassa o braço d’água. O fosso obviamente distingue os dois mundos. No entanto, sobre aquela parcela de terra dirrimida, as criaturas não conseguem se passar por naturais, tristes sombras dionísicas. Lá, nenhuma língua é úmida o suficiente para se comunicar: na verdade, a ilha é tão distante de si mesma quanto da outra margem. Resta às pálpebras cativas arder sobre os olhos selváticos, descendo um pano enjoado sobre o anti-espetáculo em plena realização.

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-A solidão do sol-

Passos ecoam como raios de neve na manhã. Mas a neve de verdade está lá fora, escondida: as muralhas defendem o mundo da visão do cárcere.

Os muros constroem seu próprio caracol, abraçando camadas e mais camadas de outros muros. Toda essa carne de pedra termina ainda por revestir milhares de esqueletos de metal, último recurso do firme claustro de almas. De almas frágeis, almas de açúcar: vida como semente morta de um imenso fruto de concreto.

É no silêncio domiciliar dessas camadas, na aridez pretensiosa dos corredores, que a trama dos passos vibra. Com ela chegam pensamentos ritmados. Mas é à solitude que eles pertencem, servindo apenas como o irritante sofrer do relógio.

A manhã franzina finalmente se descasca nas derradeiras folhas do vitimado jardim. O inverno colhe seu último tributo. Chega a tarde: o sol apagado ainda teima em sua cela gelada. Sozinho.

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-Egofagia-

A solidão humana trabalha sua mimada e gorda presença em ambos os lados de uma corriqueira causa mortis, sendo tanto seu motivo quanto sua consequência. Ainda mais complexamente, ela habita todos os extremos dos vínculos interpessoais, podendo ser a arma ou o ferimento, ser o momento solitário ou aquele compartilhado com a mais tagarela das companhias.

Os diários porcos-espinhos, nossas confusas personas, não se cansam de curtir a intragável gangorra de Schopenhauer, ora dando as quentes mãos ensanguentadas, ora almejando a pureza mais individualmente glacial.

Ainda por cima, precisamos entender que, seja do fundo do poço vazio ou do alto do mais teogônico monte, nosso choro é o de Narciso e nossa voz isqueiro do próprio cigarro, sempre variando entre o hermético e o óbvio, a depender apenas de em quem é que queremos que repouse nossa sombra. Haveria eros fora do espelho?

Diante de qualquer definição de indivíduo, raça ou espécie, sempre a seta aponta para dentro. A representação externa dos nossos desejos passa pelo crivo de outrem, mas isso não quer dizer absolutamente nada. Somos perfeitamente utilitaristas mesmos nos momentos mais afáveis, mesmo nas emoções mais nobres e atos mais altruístas. É impossível se desvencilhar da fome por si próprio.

– A solidão é o fruto inevitável do nosso profundo amor por nós mesmos.

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